sábado, 16 de maio de 2015

Lembranças Nas Tampinhas de Garrafas

Que meus crimes e pecados só sejam julgados na mesa do bar, nunca antes do décimo segundo copo de cerveja. Afinal a mesa do bar é o único lugar onde toda história – Ou estória. Tem realmente alguma importância.

Mas não há como negar, escrever histórias ou memórias é sempre muito difícil quando as melhores noites terminam em um ‘fading’ de lembranças. Esse efeito estranho que desafia todas as leis da física chamada amnésia alcoólica. Acordar sem saber exatamente onde está é sempre um pouco assustador. Mas é preciso manter a calma e depois de localizadas as roupas, a porta de saída e um taxi, tudo fica mais confortável.

Então você imagina todas aquelas páginas que representam as últimas horas da noite anterior mas tudo que tem é um parágrafo de início e algumas pobres linhas no final. Triste, isso até poderia ser uma boa história pra contar na mesa do bar.

Há algum tempo nutro o hábito de guardar nos bolsos as tampinhas das garrafas de cerveja que bebi. Não sei exatamente quando comecei isso, mas às vezes esses pequenos detalhes fazem muita diferença. Quando não existem garrafas, no caso das cervejas on tap, um guardanapo com a marca do bar ou uma bolachinha de cerveja personalizada também serve. Souvenires? Não. Fragmentos de memória.

De um jeito tosco, há uma certa esperança em que as tampinhas das garrafas me ajudarão a lembrar o que bebi e isso já é um baita começo. No meio da bagunça do bolso da calça, um guardanapo pode me dizer por quais bares eu andei e, com alguma sorte, esses pequenos fragmentos de lembranças podem iluminar algum ponto obscuro daquilo que a memória insiste em esconder.

Nas vezes em que acordar em um lugar estranho é tão assustador que nem vale a pena tentar lembrar. Vale a pena saber quais bares evitar nos próximos dias. A ressaca moral é fiel companheira nessas horas.

Há também um lance muito singelo em encontrar tampinhas de boas cervejas no bolso dos casacos – Já que não sou do tipo que guarda dinheiro. A licença poética em inventar histórias sobre uma certa noite do inverno passado, devaneando flertes no balcão do bar. Flertes que terminam em camas tão estranhas, mas que por um acaso do destino não te permitem esquecer.

Que meus pecados sejam julgados sempre na mesa do bar, assim quem sabe, no dia seguinte eles façam parte dos capítulos esquecidos dessa história.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Não Pise no Meu Sapato de Veludo Azul

Desde criança tenho uma mania estranha: Não consigo dormir se a cortina não cobrir completamente todas as frestinhas da janela. Lembro exatamente do pavor que eu sentia se entrasse no meu quarto no meio da noite e encontrasse uma fresta mostrando a noite escura lá fora. Era sempre como se tivesse alguém ali me vigiando. O curioso é que nunca tive medo do escuro, o problema era essa ínfima possibilidade de estar sendo observado.

Mais que isso, era como se houvesse uma grande lente de aumento naquela pequena fresta, onde em algum lugar do mundo uma multidão de curiosos me observava. Uma espécie de Truman Show pela fresta da janela.

Apesar de ser filho único, cresci convivendo com a casa cheia de primos. E nessa convivência perdia-se um pouco dos critérios de individualidade. Eu morava com meus avós e tudo que era dos meus avós era também dos seus netos. Na cabeça dos meus tios, tudo que era meu consequentemente era dos meus avós e por isso, também de todos os netos.

Minha casa era uma ilha comunista de brinquedos, onde os visitantes sempre chegavam de mãos abanando.

Enfim, chamem de trauma de infância, mania ou de puro e simples egoísmo, mas hoje pouca coisa tem mais valor no meu mundinho, do que a minha privacidade. Esse é meu sapato de veludo azul e é melhor que ninguém pise nele.

Acho extremamente mesquinha essa necessidade que algumas pessoas têm de observar e calcular cada passo de outra pessoa. Tudo bem que pode parecer uma grande ironia esperar privacidade em um mundo onde deixamos pegadas virtuais por todos os lados. Mas isso não quer dizer que essas pegadas devam ser seguidas o tempo todo.

Relações de qualquer natureza não podem ser díspares, é absolutamente inaceitável que alguém queira saber ao teu respeito, coisas que não pode ou não quer mostrar.

Confesso que o efeito das frestas na cortina não me causa tanto pavor como quando eu era criança. Talvez esse Truman Show da minha cabeça tenha chegado ao fim. Mas cada vez que alguém tenta bisbilhotar por cima dos muros que construí, sinto-me profundamente agredido. E esse é o tipo de agressão que eu não tolero.

No fundo somos todos tão iguais. Iguais como sardinhas dentro de uma lata.

Você não precisa abrir lata por lata para escolher a sardinha que tá lá dentro, é pressuposto que sejam apenas sardinhas. Mas se você insistir em investigar lata por lata, no final, uma simples lata de sardinhas pode te custar caro demais.




quarta-feira, 9 de julho de 2014

No Galope do Acaso

Há quem não acredite no acaso. Eu me encanto com ele a cada movimento das peças sobre o tabuleiro.

O surfista que fica horas esperando a onda certa não sabe que horas ela virá. Não é um encontro romântico com hora certa. Não é uma sessão de cinema com lugar marcado. É apostar no acaso. É o feeling de quem conhece e respeita o mar, esperando a hora em que ele lhe retribuirá tal carinho.

Meu avô sempre dizia que o cavalo só passa encilhado uma vez. Na intenção de dizer "hey, aproveite as oportunidades". Talvez alguns desses cavalos, soltos pela coxilha, tenham sido encilhados pelo acaso.

Reza a lenda que Sir Isaac Newton estava tranquilamente sentado sob a sombra de uma macieira quando uma despretensiosa maça lhe caiu sobre a cabeça. Ok, é apenas um mito. Mas realmente foi observando a queda sempre perpendicular de uma maça que o levou a pensar a teoria gravitacional desenvolvendo a famosa lei da gravidade. O acaso dessa vez encilhou um cavalo que Newton não deixou de montar. Ou talvez por um instante ele fosse o surfista domando gentil a força do mar, na espera pela onda certa.

Sei que há mais que o acaso nisso, há no mundo tantas energias, frequências e sintonias que seria simplista e ingênuo colocar tudo na conta do acaso. Mas não são os deuses do destino que te fazem conhecer alguém legal caralho, num dia que tinha tudo pra ser chato pra caralho. Há muitos dias legais pra caralho e há muita gente chata pra caralho também. Mas há um prazer misterioso em imaginar que tu conheceu alguém que, ocasionalmente, tem uma avó que nasceu no mesmo lugar que a tua avó e que tem um avô que tinha o mesmo trabalho que o teu.

Ano passado sofri um acidente de moto e fraturei a perna. Nessa época eu morava em Curitiba e estava visitando minha mãe no interior do Paraná. A perna que eu quebrei tem uma grande tatuagem em alusão ao álbum The Wall, do Pink Floyd. Conversando com o ortopedista, depois do diagnostico, ele perguntou sobre a tatuagem e por fim descobri que ele também morava em Curitiba e que também estava no show do Roger Waters em Porto Alegre em Março de 2012. Nada demais, é de fato apenas um fragmento de uma história solta na minha memória, envolta na simplicidade do acaso de um acidente de moto.

Entender o acaso e aceita-lo como timoneiro não é tarefa simples, talvez nem seja uma questão de escolha também. A vida é sempre muito urgente de imediatismos. Quase sempre queremos tudo na ânsia da impaciência, tudo plug n play; Fast food; Just in time. Mas são coisas da juventude, quanto mais tempo se tem para viver, mais pressa se tem em viver tudo ao mesmo tempo. Como a urgência em fotografar o pôr do sol, antes mesmo de apreciar o pôr do sol. O registro do momento passa a ser mais importante que o momento.

Você que está lendo esse texto provavelmente não chegou até aqui por acaso. Mas talvez quando fechar o navegador, com esse ar de tempo perdido, por acaso entenda que há mais na vida que planos e projetos. Por mais que a areia da ampulheta corra urgente, ela irá sempre na mesma direção.

Tudo bem, não é exatamente o acaso que coloca o surfista na água e o faça paciente esperar a melhor onda. A probabilidade está do seu lado. Também não foi o acaso que inventou o pôr do sol e nem é ele quem derruba as maças. Talvez os cavalos do acaso pastem soltos pela coxilha sem cela, esperando alguém que lhes queira montar.

Quem sabe o acaso more no improvável instante em que tu não espera que nada relevante aconteça. E talvez o acaso morra toda vez que alguém tente explicar, de um jeito urgente e simplista, o que é o acaso.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Entre Metáforas e Quebra Cabeças

Talvez faça parte da natureza humana sentir-se velho na hora errada e consequentemente, sentir-se jovem na hora errada.

Um guri de 12 anos fala aos de 10 com ares de superioridade. É um velho aos olhos inexperientes de quem ainda não viveu mais de uma década. Da mesma forma me sinto velho, quando conto aos amigos mais jovens, de todas as coisas que já vivi, com ares de quem pode de alguma forma passar adiante esta pífia sabedoria de mesa de bar.

Velhos tem uma única obrigação na vida; Saber contar boas histórias.

E entre os velhos, alguns terão a fina habilidade de usar a metáfora.

Pois poucas coisas são tão encantadoras quanto as sutilezas da metáfora. Tudo fica mais bonito, embrulhado feito presente, em uma metáfora enfeitada. Grandes pensadores fizeram da metáfora exagerada os alicerces do seu trabalho. George Orwell, por exemplo, em "A Revolução dos Bichos" retratou todas as nuances da sociedade metaforizando a essência do ser humano. Também Neruda, comunista, politizado até os ossos, em seus mais singelos poemas de amor, metaforizava os preceitos políticos dos quais acreditava. E o que dizer de Kafka, que eternizou da forma mais nonsense possível a psique humana, na metáfora da transmutação.

Há tanta beleza em uma metáfora, quanto há naquele avermelhado pôr do sol. No vermelho da maça que muda destinos, seja Adão ou Newton seu nome. E assim como há sutileza no desabrochar de uma rosa rompendo o orvalho congelado sobre suas pétalas. Assim como a fúria do estrondoso trovão, que iluminou todo o céu com a força pura e natural de um raio.

Talvez sentir-se velho seja uma pequena metáfora também. Afinal sempre me sinto velho quando procuro lembranças. São tantas coisas amontoadas pelos cantos da minha cabeça, como em uma biblioteca muito antiga e empoeirada. Me sinto velho e cansado. As escadas que levam as lembranças nas prateleiras superiores fazem meus joelhos doerem. Ou me fazem imaginar que não vale a pena tentar.

Em meio às minhas mais belas metáforas, guardo alguns retratos teus escondidos em algum canto da minha memória. E quando isso falha, como quase todas as minhas boas lembranças, eu procuro em outros lugares. No fim das contas eu acabei associando teu rosto a quase tudo que me agrada.

Dessa vez foi um rótulo de cerveja, uma que eu disse que você iria gostar. Eu até disse os motivos mas você não deu bola. E eu entendo, afinal, já disse tantas coisas mesmo. Quase tudo que eu pensei e senti, na mesma desordem que pensei e senti. E no fim das contas aquele era mesmo eu, um quebra cabeças espalhado pelo chão de um quarto de hotel.

Eu sei que ás vezes falo demais, e que ás vezes espero que o mundo seja um pouco mais simples do que um quebra cabeças desconexo. Simples como teu sorriso.

Um dia, há muito tempo, eu tentei imaginar como seria fácil gostar de alguém. Mas algo gritava em meus ouvidos - Improvável.

Um dia sem querer, sem muitos planos ou expectativas, esse alguém deixou que eu entrasse pela porta. E esse velho, de All Star sujo e camiseta do Ramones, com os bolsos carregados de metáforas e devaneios, por algum motivo bobo te roubou um beijo. E eu nunca mais quis ir embora.

Agora, sem metáforas, precisa ir e não consegue.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

À Deriva

Do que são feitos os sonhos.?
Este qual não se precisa dormir. De alguma sutil matéria, invisível; Intocável. Misteriosa matéria, surgindo sempre que o desejo encontra abrigo em algum sorriso, nem sempre tão sincero quanto se espera.

No fundo somos todos iguais. Caravelas em mar aberto, sopradas puramente pelo desejo. E não há mentiras ou verdades; Vaidades ou culpas, capazes de ancorar esta nau.

Do que são feitos os medos então.?
Estes que nos tiram o sono, a paz e a razão. Essa anti matéria capaz de aniquilar qualquer luz, qualquer energia. Fossilizando a antes infalível capacidade de sonhar alem dos muros.

Que bizarras criaturas somos nós. Essa desmedida mistura de desejos e medos; Ancora e vela.

O desejo inventa a miragem, daquele que perdido no deserto busca a própria vida. Assim como a saudade inventa sorrisos. Mas não há virtude ou demérito em deixar-se levar pelas miragens.

Talvez haja alguma virtude no equilíbrio, o caminho do meio, como prega o budismo. Essa habilidade de equilibrar-se entre o desejo e o medo sem perder o foco, sem evitar os próximos passos.

Talvez os sonhos sejam o elo entre aquilo que o medo afronta, atando ao que o desejo idealiza. E a freqüência desse sinal se propaga de forma uniforme, é impossível evitá-la.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Sobre Sonhos e Medos

Acho que já escrevi sobre sonhos, e continuo sem entender à sua mecânica de criação. Às vezes tenho sonhos que se repetem durante um tempo e eu também não sei explicar seus motivos. Minha avó sempre tem explicações para os sonhos, sempre diz pra ter cuidado com isso ou aquilo, mas eu sempre entendo isso como um derivado do "leve um casaquinho".

Há algum tempo tenho um sonho que se repete. Às vezes com mais clareza de detalhes, outras vezes são apenas as sensações.

Tudo se passa em uma guerra medieval. Eu sigo à frente de uma pequena armada, não mais que 30 homens. Do outro lado um exercito inteiro com seus escudos e espadas. O meu pequeno exército é pífio perto de todos os outros soldados. Mas são eles que têm medo. Em algum momento lhes falo sobre sermos homens livres. Lembro disso com muita clareza "Hoje morreremos homens livres e nos encontraremos nos jardins de Valhalla".

Depois disso eu não me lembro de outras pessoas lutando comigo. Eu sigo caminhando firme, sempre em frente. Vejo meu reflexo refletido nos escudos dos inimigos. Eu não tenho armadura ou escudo, apenas um machado pequeno. Sinto o chão gelado e a cada passo meus pés afundando no gelo. Ainda assim me sinto mais forte. A imagem refletida nos escudos, a neve se agarrando à barba e o frio congelando os ossos. Mas me sinto cada vez mais forte e mais confiante. A cada passo os escudos tremem e é possível ver o medo nos olhos de cada um. Eu sozinho contra um exercito, mas eles é que sentiam medo.

Sinto-me extasiado, não sou soldado ou rei. Não sou herói, nem um deus, mas sou infalível, imbatível. Eu não sinto medo. Sinto cada músculo do meu corpo, sinto o frio e o vento, mas por mais certa a morte, não sinto medo.

Geralmente acordo quando meus pés não conseguem mais ir adiante no gelo, e quando acordo sempre sinto muito frio.

Não perguntei pra minha avó sobre o significado desses sonhos, mas resolvi escrever sobre isso porque na noite passada ele se repetiu, mas hoje, hoje sinto medo.

Fora do fantástico mundo dos sonhos, escolhi enfrentar exércitos muito maiores e eles não sentem medo do meu machado. Aqui fora, quem sente medo sou eu. Escolhi enfrentar minha maior luta, sem armadura ou escudo e sei que meu inimigo não vai tremer, e disso, sinto medo. Escolhi enfrentar o frio, ignorando o gelo sob meus pés, ignorando as possibilidades que certamente não são favoráveis. E a cada passo sei que sentirei medo.

Mas nada disso fugiu do meu consenso. Meu medo pode me tirar o sono, mas não impediu que eu fizesse minhas próprias escolhas. E eu prefiro acordar por não conseguir mais andar no gelo, do que envelhecer com a sensação de que meu medo não me permitiu correr riscos.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Raízes, Asas e o Próximo Passo

Nos últimos dias, perdi a conta das vezes que fiquei olhando pro nada, imaginando como uma vida toda pode ser desenhada à partir de um sorriso, ou de um passo em falso. Ninguém sabe o que o futuro reserva, ainda assim, é impossível não especular. O homem e essa mania de querer controle sobre tudo, sobre o tempo, sobre o próximo segundo, sobre cada singelo ato de respirar. Mesmo seguindo rumos tão imprevisíveis. Talvez seja exatamente essa a grande sacada, aceitar o caos, aceitar que o próximo passo é só perspectiva e improbabilidade.

Não lembro exatamente o que Lacan diz sobre isso, no meu achismo, sempre imaginei que o desejo é que bestializa o homem.

É inevitável, são tantos sentidos que guiam o homem, é simplista resumir tudo como razão e emoção. De qualquer forma, sei que durante muito tempo me senti caminhando em sentidos opostos. Enquanto a razão buscava enraizar convicções, transformando qualquer subjetividade em fumaça, havia um exército de sentimentos instintivamente buscando os céus, querendo voar em todas as direções ao mesmo tempo.

Mas é impossível ter raízes e ter asas.

As árvores tem raízes, dependem delas. As raízes são o elo vital da árvore, é o que lhes da robustez para suportar qualquer intempérie. O grão germina e antes mesmo de lançar o primeiro broto ao sol, se lança a profundidade do solo agarrando aquele que será seu eterno canto no mundo. Ninguém duvida das convicções de uma arvore em enraizar-se. É pura razão, ainda que curiosamente, não haveria árvore sem polinização, tampouco fruto e semente, não fosse o vento.

Pois é nesse universo invisível que correntes de ar sustentam asas. Sejam asas pequenas de abelhas operárias ou asas potentes rasgando o céu com fúria e liberdade. Não haveria a convicção robusta de um jacarandá, não fosse o clandestino trabalho feito distante do solo, em voo livre. Mas a natureza partilha de uma ironia especial, tornando asas e raízes indispensáveis entre si. Não é possível viver de voo. Não se faz ninho na força do vento e nem é possível alimentar-se de nuvens. E é na convicção das árvores que buscam abrigo as libertinas criaturas aladas.

Nos últimos anos, perdi a conta de quantas vezes desejei ter raízes e ter asas. Quantas vezes busquei acreditar que aquilo que eu mais precisava estava escondido dentro dos meus muros, e que o 'lado de fora' não era mais que uma paisagem antiga e distante da realidade. Que ser racional refletiria em mim a robustez e respeito de um cedro, inerte ao vento e às tempestades. Outras vezes desejei ser vários, e assim ter a liberdade de correr o mundo sem abrir mão de nada, sem a privação que as escolhas impõe. Abdicar de rótulos e conceitos, poder ser livre pra rogar pela fé e argumentar pela ciência sem a preocupação do quão ridículo e infantil isso me faria.

Esse desejo tirou meu sono durante muito tempo. As raízes que eu queria, me dariam segurança enquanto o voo livre me faria frágil, desprotegido. Mas as asas me dariam a liberdade de novos horizontes a cada instante, enquanto as raízes me prenderiam ao constante e imutável.

Talvez exista alguma verdade nisso, o desejo bestializa o homem, mas definitivamente, há muito mais que desejo no que sinto.

Então por ser impossível ter raízes e ter asas, resolvi colocar o pé na estrada. Vezes afoito, vezes cauteloso, mensurar os riscos do próximo passo não é a parte mais importante. O fundamental é ter noção daquilo que te faz bem, um passo adiante e fica no caminho o que faz mal, sem tanto apego à paisagem. Hoje entendo que fechando meus olhos posso encontrar todas as lembranças que preciso para os próximos passos, desenhando tudo que eu quiser, seja à partir de um sorriso encantador ou de um sonho ébrio. Assim eu posso olhar pro nada, imaginando uma vida toda fazendo de conta que tenho as raízes que sempre quis, e no instante seguinte, desvairado, correr e sentir o vento como se eu pudesse voar.

Especular o futuro tem sido mais leve assim, entre versos e cervejas, há mais que gentilezas em minhas palavras, acredite.

terça-feira, 29 de abril de 2014

As Verdades Escondidas Em Um Disco do Pink Floyd

Não sei dizer se sou um bom contador de histórias, acho que nem sei como se classifica um bom contador de histórias. Não consigo evitar o equilíbrio de personalidade de cada personagem e isso tira um pouco da mágica que define vilões e mocinhos. Não consigo acreditar na pureza do coração do mocinho e muito menos na pura e simples maldade do vilão. Augusto Comte dizia que todo ser humano nasce naturalmente bom, eu não consigo concordar com sua teoria. Pra mim, todo ser humano nasce, humano. E por isso, aberto à qualquer falha de caráter e à toda circunstancia de vivência.

Quando eu era criança, meu avô não deixava que eu saísse pra pescar com os guris mais velhos. Ele não dizia o motivo, era um ex militar que lhe bastava dizer sim ou não. A ordem era essa, não podia. Um dia eu insisti muito, porque as histórias que os guris mais velhos contavam das pescarias eram incríveis e eu queria muito participar de tudo aquilo, poder também contar aquelas histórias. Mas a ordem era muito clara, Não podia. Nesse dia insisti, disse que iria pescar de qualquer forma, porque queria muito comer peixe, e nunca tinha peixe em casa. Meu avô então apareceu com algumas latas de sardinha e me fez comer todas elas. Nunca mais, em toda a minha vida, voltei a comer sardinha.

Sinceramente não sei se meu avô fez aquilo pra me dar uma lição, não era o estilo dele usar de artifícios pra autenticar a sua autoridade. Ele gostava muito de sardinha e talvez na cabeça dele, estava fazendo o melhor. Assim como acho que ele sempre fez o melhor que pode, dentro daquilo que as vivências dele, permitiam. Sem dúvidas ele era muito mais rígido que os pais dos meus amigos, mas possivelmente, era muito mais complacente que o seu próprio pai. Não há uma definição pra isso, só equilíbrio.

Às vezes tento imaginar a vida sem considerar o tempo. Idade pode não significar absolutamente nada quando entramos no mérito das vivências. Quando eu tinha uns 12 anos conheci um guri que tinha minha idade e já tinha viajado o mundo todo, era corredor de bicicross. Ele tinha tantas histórias legais pra contar, dos países, das pessoas, das provas. Mas ele também nunca tinha ido pescar com o resto do pessoal. Ele não tinha tempo pra essas bobagens. Então, como é possível qualificar essas vivencias.? Uma das coisas que eu mais queria no mundo era pescar com os outros caras, e ele, que também não ia, tinha tantas outras coisas legais pra viver. Eu comecei a entender melhor esses aspectos quando comecei a viajar de moto. As pessoas me perguntavam pra onde eu tava indo e eu nunca sabia responder. Não era o destino que importava, era cada quilômetro da viagem.

Há muito tempo tenho essa ideia de que tudo precisa de outras perspectivas pra fazer sentido. Como naquela coisa das verdades tridimensionais. Sempre digo que o melhor disco do Pink Floyd é o 'The Final Cut', mas pouca gente sabe exatamente o motivo. Nesse disco, Roger Waters mostra de uma forma explicita tudo que sente a respeito do pós guerra e de como culpa o estado pela morte do pai. Mas principalmente, é a chave de todo o ressentimento e dificuldade que tem de lidar com o mundo, exatamente pelo reflexo da ausência do pai.

Pra mim, sempre foi impossível não enxergar tudo aquilo refletindo como um espelho tudo que já senti. O muro onde me escondo, os medos e as angustias que só fazem sentido pra quem vivenciou situações parecidas.

Roger Waters tinha 39 anos quando o disco "The Final Cut" começou a ser gravado, em 1982, apenas um ano depois que nasci. Conheci meu pai quando tinha 29 anos. No dia em que fui encontra-lo não sabia exatamente como agir, pesavam quase 30 anos de magoa e rancor e de certa forma, pesavam também os mesmos quase 30 anos de uma pseudo saudade, de um arranjo mental das expectativas do que poderia ter sido. Mas o que encontrei não foi meu avô de modos simples e rígidos, nem o pai fraterno idealizado com ideias roubadas dos pais dos meus amigos. Encontrei uma criança insegura, com muito medo de encarar um passado mal resolvido. Algumas coisas não mudam, mas na maioria das vezes, andar em círculos é uma bobagem, uma vaidade destrutiva.

Acho que nunca serei um bom contador de histórias, acho chato ter que explicar algumas coisas que a imaginação não consegue criar por conta própria. Mas tenho tentado escrever minha história sem que a culpa seja parceira da tinta da caneta. Não quero a sina de rotular e ser rotulado, muito menos o fardo de lidar com as culpas alheias. A vida é uma viagem longa, e não importa o destino, é preciso ter calma pra apreciar a paisagem.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O Sempre Inevitável Beijo... Na Lona.!

Durante todo dia ensaiei o momento de começar a escrever, em uma imagem um pouco bucólica até. Minha dúvida era se beberia vinho, ou uísque com cerveja. Se meu espirito estaria sedento como o de Bukowski, ou uma locomotiva sem freios como Kerouac. Mas acho mesmo que nunca vou me encaixar nessas caricaturas. To cansado e não consigo dormir, na caneca um chá de hortelã com mel, pra segurar a gripe. E pra espantar o frio, um moletom velho e as pantufas do frajola. Muito longe da imagem icônica desses caras que guiaram a geração beatnik, mas enfim, o dia foi difícil e de qualquer modo, eu não sou mesmo escritor.

Mas agora Começo a escrever como quem tem um pequeno pigarro antes de começar um discurso. Mesmo que o discurso venha da ponta dos dedos, titubear com as mãos sobre o teclado, pisando em ovos sobre qual expressão usar dessa vez. A voz fica presa, os dedos travam, são sinônimos modernos desse 'falar escrevendo'. E fico imaginando como seria ter o timing certo de escrever na hora certa, usando as expressões certas. Aquela mágica que os caras fazem com algumas músicas, que dizem exatamente o que tu queria dizer, mas não disse porque tu também não é mágico.

Na verdade comecei a escrever pra dar um tempo de escrever. Isso, relaxar. Passei os últimos dias trabalhando em um material que coloca definitivamente nos trilhos vários projetos legais. Mas agora, nesse break me vi no espelho do banheiro e o cara do outro lado me disse sem nenhum pudor, que isso tudo é uma perda de tempo. Enfim, talvez ele tenha mesmo razão...

É estranho dizer isso mas nunca fui um otimista. Nem com futebol ou com o disco novo da minha banda preferida. Acostumei a ver o time rival vencer toda vez que sento em frente à TV pra torcer contra. E pra quem acha que a torrada cair com a geleia pra baixo é azar, digo e aceito como a natureza dos fatos. Sempre foi assim comigo, na escola o professor sempre me fazia a pergunta que eu não sabia responder. E mesmo que eu soubesse com maestria todas as outras, pra mim sempre ficava aquela cuja resposta eu desconhecia.

(Resolvi esse problema quando decidi ignorar algumas respostas)

Definitivamente há muitas maneiras de dizer a mesma coisa e ainda assim, algumas não devem ser ditas. Que isso não soe um lamento exagerado. A triste história do cara que sempre se fodeu. Não, de forma alguma. Todo mundo sempre se fode de uma forma ou de outra, a diferença talvez seja a capacidade pessoal de cada um lidar com isso. Alguns urgem pela auto piedade cantando suas derrotas, outros ignoram o beijo na lona.

Eu não nego o beijo na lona.

Nessas horas sempre lembro de Fernando Pessoa, Poema em linha reta.

"Quem me dera ouvir de alguém a voz humanaQue confessasse não um pecado, mas uma infâmia;Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?Ó príncipes, meus irmãos,(…)Arre, estou farto de semideuses!Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?"

Sim, admito, meu pessimismo me fez vil várias vezes. Mas quem me fez pessimista foram todos os socos que omiti e todas as vezes que beijei a lona. E todas as vezes que calado acovardei-me por não ter ganas. Admito sim, sou um vil mentiroso que sorri diante o espelho quando o mundo insiste em me arrancar todos os dentes sem nenhuma piedade, e me contento com as piadas sem graça que faço, com o riso alheio que provoco com meu próprio escarnio. Eu visto sim silenciosamente as carapuças quando alguém resolve atirar julgamentos e moralismos ao vento. Eu visto porquê quase todas elas me servem e porque seus donos, príncipes, como diria Pessoa, nunca o farão. Porque estes erros absurdos e condenáveis que entre dentes todos negam, eu embriagado assumi.

Meu pessimismo não me orgulha, não é troféu na minha estante. Ele me faz acreditar que toda a sujeira nas lentes dos óculos não são nada comparado à toda sujeira que flutua em minha atmosfera. E isso tem renovado nos últimos anos um cansaço crônico. O cansaço do verbo to be. Cansaço de ser, De ser adulto, de ser saudável, de ser melhor, de ser melhor que o melhor de ontem, de ser responsável, de ser criativo e produtivo, de ser amigo, de ser paciente, de ser honesto e convicto. Enfim, um cansaço crônico e existencial de ter que ser alguma coisa o tempo todo. E sobretudo o cansaço de saber que o estopim de tudo isso é o otimismo que não tenho.

Mas meu pessimismo é como esse moletom velho, como minhas pantufas. E com eles que me sinto mais confortável, é com eles que consigo ignorar Bukowski e Kerouac. Mas lá fora, eu preciso de uma máscara. Não uma máscara de herói, não uma máscara de vilão. Só uma máscara que esconda um pouco a cara amassada por tantos beijos na lona.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Ensaios Sobre Viagens no Tempo

Na maioria das vezes, antes de dormir, eu fico pensando nas coisas que preciso fazer. Fico pensando naquilo que eu disse em uma determinada conversa, recriando as falas, inventando diálogos e situações. Sabotador, fico me colocando em xeque pra saber como seria. Às vezes, antes de dormir, eu fico calculando o tempo, mensurando distâncias e testando o limite de tudo que parece ilimitado.

Mas não, dessa vez não pensei em nada disso...

Dessa vez, lembrei-me da primeira vez que te vi, no meio de tantos rostos tão estranhos. E de como fui insolente te pedindo pra ficar.

Algumas vezes antes de dormir, fico pensando nessas teorias de que durante o sono tua 'alma' (ou seja lá o que for) pode sair do corpo, e em universos paralelos, viajar no tempo e espaço, enfim, ir pra qualquer lugar. Eu já me esforcei tanto pra estar em tantos lugares e por tantos motivos.

Mas dessa vez, como ontem e anteontem, eu só queria estar em um lugar, por um único motivo...

Sempre imaginei os sonhos como uma grande colcha de retalhos, que por algum motivo mistura as mais diversas lembranças, desejos e medos. Formando assim uma "pseudo realidade" uniforme e absolutamente confusa. Dia desses sonhei contigo, e me dei conta que tenho ótimas lembranças...

Às vezes exagero... Em quase tudo.! Até sendo mais palhaço que de costume, porque me encanta te ver rir até quase perder o ar. E quase sempre exagero nas lembranças também. Mas realmente me encanta quando o sono começa a apertar, e tua voz vai ficando rouca até mudar de tom no fim das frases.

Pessimista, já me perguntei quanto disso tudo existe realmente e quanto inventei. Como em um quebra-cabeças onde as lacunas são preenchidas com tudo aquilo que parece melhor. Ou como um quadro pintado pela metade, onde as cores podem ou não se completar e dar uma forma consistente. Eu não enxergo muito bem, e ás vezes tudo que é nítido perde o foco. Mas nessas horas lembro do reflexo da luz nos teus óculos e do jeito franzido da tua testa quando sem querer, pisam nos teus calos.

Sabe, eu nem gosto tanto assim rock progressivo. Mas eu gosto de como tu consegue ser o que quer ser, sem se preocupar com os rótulos e os estereótipos. A forma como tu quer abraçar o mundo, sem nunca abrir mão do teu intransponível muro. E é curioso como tu consegue convencer o mundo de que atrás desse muro não existe nada de valor, assim, ninguém se esforça a entrar por simples curiosidade. E por ser quem tu quer ser, acaba em tantos sons, em tantas frequências, que até me encanta o rock progressivo que tu faz.

Acho que no fundo, me encanta também a forma como tu te protege de tudo. Acho que assim um dia eu vou entender se, insolente ou não, eu mereço ficar.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Tocando 'Like A Rolling Stone' na Máquina de Escrever

A vida muda, com a frequência em que Bob Dylan muda as letras de suas músicas. E honestamente, minha esperança é acreditar que essa seja a melhor parte...

Mas é sempre curioso imaginar o tempo como algo linear. Pois em um dia meu medo era o alistamento militar e meu encantamento os 'discos' que tinham todas as músicas no mesmo lado. E em um piscar de olhos, nem tão velho nem tão jovem, mudamos de século, de milênio até, e assim sem regras nem fim do mundo, pouca coisa mudou de fato. No novo milênio meu medo era conseguir pagar todas as contas sem pedir arrego, e curiosamente, conseguir aquele vinil do Pink Floyd pra ouvir junto com 'O Mágico de Oz'.

Mudaram as regras gramaticais e eu ainda faço um puta esforço pra lembrar a forma correta de conjugar os verbos. Mudaram as tecnologias e eu ainda guardo em algum lugar a minha máquina de escrever portátil, que curiosamente, de portátil não tem nada. Mudaram também as formas como a informação se espalha, em uma política curiosa de quanto menos papel melhor, com a urgência do 'just in time'. E apesar disso tudo, ainda me encanta escrever usando lápis em cadernos sem pauta.

Me encanta ter ainda o primeiro disco que ganhei aos 8 anos, e me encanta ter crescido vivendo a magía de um aparelho de som com duplo deck.

Caminho pela rua e vejo um mundo completamente dependente de parafernálias tecnológicas com telas touchscreen e bluetoths. Nessas horas confesso intimamente, houve um tempo em que até telefones celulares pareciam desnecessários e complexos pra minha cabeça ingênua. Mesmo passando a maior parte da vida trabalhando com tecnologia, é a simplicidade que me encanta. Não sou desses apaixonados pelo vintage, sou só um pouco velho por dentro. Não tenho culpa, cresci vendo estes filmes onde o mocinho fuma um cigarro com o pé encostado no muro, olhando o mundo por cima dos óculos escuros. E em meio as dúvidas sobre sua jornada, sempre aparece um velho sábio, que já foi mocinho em outro filme, lhe mostrando com clichês e frases feitas, o melhor caminho.

'Sexo, drogas e rock n roll' não era vintage e o mocinho do filme esbanjava aptidões heroicas, mesmo quando quando seu 'velho guru' era só um errante bêbado. Os anos 80 não eram vintage e eu era só um guri careta, que não gostava de Led Zeppelin e nunca teve saco pra decorar a letra de Faroeste Caboclo. E talvez pelo olhar inalcançável das meninas bonitas da 8º série, nas minhas infantis ilusões, nunca me serviu a fantasia de mocinho. Não bastavam os devaneios e poemas que confessei aos tipos da máquina de escrever, nem meu precoce conhecimento sobre astronomia. Não havia vaga de herói nesse filme, no meu filme, e por me faltarem boas piadas, me bastou ser o errante.

É sempre difícil não imaginar o tempo como algo linear, e cada história, uma página datilografada as pressas, sem o direito de usar o backspace pra corrigir pequenos enganos. E assim como placebo, inventamos um marca textos destacando linhas a esmo, quando na verdade, só queremos tirar a atenção dos espinhos do texto. E por isso, se somos todos o clichê de um livro aberto, de uma história tão exposta, tão explícita, sempre haverá capítulos rabiscados e páginas arrancadas. É melhor assim, acredite.

Nem tão jovem, nem tão velho, mas o século mudou, o milênio também. Não servi o exército e consegui vários discos do Pink Floyd. Abri mão de trabalhar com tecnologia. Nenhum velho, mocinho de outro filme, apareceu com conselhos que mudassem o rumo da minha história. E talvez por isso, no fundo, tive que ser meu próprio velho.

Talvez Bob Dylan mude tanto as letras de suas músicas, porque sabe que não pode mudar o motivo de tê-las escrito.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Pelas Janelas, Eu e Minha Circunstância...

Às vezes o caos é o único caminho. É engraçado, passei os últimos 30 minutos olhando a tela do computador, com o bloco de notas aberto, sem imaginar nada importante que pudesse ser dito/escrito, apesar de sentir essa imensa urgência em escrever. Na noite passada acordei de um sonho estranho, saí da cama e escrevi o último verso de uma canção que eu já tinha desistido de terminar. Foram quatro linhas sem nenhuma rima, mas era exatamente a engrenagem que falta pro mecanismo da canção inteira funcionar. Acho que a vida é isso, tudo que acontece quando a gente não espera que nada mais de relevante possa acontecer. Como ficar esperando e contando cada gota que cai do conta-gotas do remédio, sem sequer estar doente. Mas o fato é que a gente não espera que algo aconteça entre uma gota e outra, ninguém mensura o acaso.

Pode parecer pessimismo, talvez a vida seja isso mesmo, o que acontece no intervalo do conta-gotas mas parece tão pueril que não se pode perceber.

Lembrei-me de ter dito em algum momento ébrio, não lembro exatamente quando, que a vida é como uma grande mesa de bar com algumas cadeiras vazias.

Basta se imaginar em um bar muito cheio, a vida é um pouco assim.! Às vezes o pedido demora pra sair e às vezes não era exatamente como dizia no cardápio. Quando tua mesa tem cadeiras sobrando, vez ou outra sentam nela pessoas que tu não conhece direito, amigos de amigos, amigos dos amigos dos amigos, alguém sempre ocupa esse espaço temporariamente até que algo "melhor" aconteça. A atividade na mesa do bar não tem uma pausa pra que o garçom traga a próxima cerveja, e há quem não beba cerveja e siga como peça fundamental na atividade da mesa. As conversas não cessam quando tu precisa ir ao banheiro, e se tu perdeu a piada, deixa pra lá, porque outras virão e tu pode ser o motivo delas.

Não há lugar melhor no mundo pra resolver questões complexas da vida, ou os problemas do mundo, do que a mesa de um bar. A mesa do bar é o confessionário em que até os ateus se rendem. É onde a fé e a ciência pesam sem culpa na mesma balança e disputam alguma credibilidade ao lado de indiferenças e 'achismos' ébrios. É onde anjos e demônios se despem de suas armaduras e armas, compartilhando da mesma garrafa, sem nenhum pesar. Não há mentiras ou verdades absolutas em mesa de bar, tudo é relativo, é onde matéria e anti matéria não se destroem. Apenas se juntam pra compartilhar o que tiverem de melhor e pior. A mesa de bar não é justa. É onde tudo pode ser dividido sem pesar. É onde não existem heróis sem defeitos, ou vilões sem grandes qualidades.

E na mesa do bar, assim como na vida, às vezes tudo parece imensamente mais sedutor na mesa ao lado...

Enfim, acho que essa história toda, como todas as minhas outras teorias, só faz sentido quando não precisa fazer nenhum sentido pra parecer interessante. Dessas coisas que não vou contar pros meus netos enquanto tomo tranquilamente meu chimarrão, fingindo ser uma inabalável estrutura de virtudes.

Dos hábitos estranhos que tenho durante a madrugada, nas noites de insônia, sempre me bate uma puta vontade de tomar chimarrão. Mas o mate tira o meu sono de um jeito único, e nem café, nem as contas à pagar têm o mesmo efeito. Invariavelmente, nunca evito esses pequenos delitos. Da janela do apartamento eu fico vendo os aviões que passam no horizonte, e passo o tempo inventando histórias pra um alguém imaginário que tá indo pra algum lugar, ou fugindo de alguma coisa que não se pode evitar. Como um chimarrão que tira o sono, em uma noite de insônia.

O mesmo acontece quando, viajando, o avião começa a sobrevoar as luzes alaranjadas de uma cidade estranha. Fico imaginando alguém na sacada do apartamento, com insônia, fumando um cigarro ou tomando um mate e inventando histórias pras pessoas de dentro do avião. Que história esse alguém reservou pra mim.? Seriam melhores que a minha própria história, ou melhores que as histórias que inventei pra outros estranhos.? E quem sabe, quantas vezes já bebemos ou beberemos, sentados em mesas diferentes no mesmo bar.?

Talvez a vida seja isso, o acaso de uma história em que tu procura se encontrar, se encaixar como a peça de um grande quebra-cabeças. Seja pela janela do avião em uma cidade estranha ou na janela do navegador, procurando espaço em outras histórias, de outros estranhos que perderam o sono e se puseram a escrever. Talvez na janela do editor de textos, procurando as palavras certas pra verbalizar aquilo que é tão facil sussurrar no amanhecer do dia.

Mas não, ninguém mensura o acaso.

Era isso que José Ortega y Gasset queria dizer com "Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim."...??? Essa é a hora em que o caos abraça o acaso, pra uma última dança, sem pressa, assim entre uma gota e outra...

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Insônia e Conversa Pra Boi Dormir

Qual o sentido da vida.? Qual a cor do universo.? Qual o melhor horário pra conversar com as plantas.?

Não sei sobre o que escrever, mas a insônia me jogou pra frente do computador e com uma urgência de dizer alguma coisa importante. Resoluções de fim de ano, metas, promessas, perspectivas.? Não sei, qual a cor da vida, e o sentido do universo.? Tudo parece ter a mesma importância agora.

Na cabeceira da cama, entre a bagunça de carregadores de celular, passaporte e gaitas de boca, há alguns livros. A maioria desses livros eu ainda não li e fico enrolando porque acho que ainda não é hora. Eu não sei explicar qual é a hora certa pra começar a ler um determinado livro, de um determinado autor. Soa tão vago quanto perguntar qual o melhor horário pra conversar com as plantas, ou qual o momento exato de descascar uma laranja. Pra insônia que tem me acompanhado nesses dias, li de novo o "Memórias de minhas putas tristes". Já perdi a conta de quantas vezes li esse livro, e não sei dizer qual é a hora de parar. Tudo parece acontecer na hora errada ultimamente.

Nesse momento estou na casa da minha mãe, e isso traz sempre algumas sensações peculiares. Vivi aqui por alguns anos, mas tá tudo tão diferente que é como estar em um quarto de hotel. Quartos de hotel são sempre diferentes, mas, particularmente iguais. Quase como um suco de laranja que é exatamente igual a todos os outros, sem se parecer em nada com todos os outros. Eu sei, é bobagem. Quartos de hotel e sucos de laranja são como são, depende sempre do ponto de vista.

Nos últimos dias tenho viajado um pouco e os quartos de hotel às vezes se parecem com o quarto em que durmo, na casa da minha mãe. Mas é estranho acordar sem saber exatamente onde você esta. No próximo ano, não sei exatamente onde vou morar e agora fico com a impressão de que, por algum tempo, vou acordar sem saber se é um quarto de hotel ou se é minha casa. Acho que essa é mais uma dessas perguntas que eu não saberia responder e mesmo que soubesse, não teria a menor relevância.

Não costumo ter metas agressivas e complexas no começo do ano. Acho que as coisas se encaixam mesmo no segundo semestre. O primeiro semestre de um ano é só pra arrumar a bagunça do ano anterior. Na teoria, mas só na teoria. Sempre imaginei o ano assim, simétrico. Como um disco de vinil. Lado A e lado B com distintas propostas. Cresci ouvindo discos de vinil e sempre insisto nessa mágica de que ouvir música é algo complexo. Desde tirar o disco com cuidado da embalagem até o acompanhamento passo a passo do encarte. Os discos eram chamados álbuns, porque era a proposta visual da banda aliada à proposta musical da banda. Eu comprei poucos discos na minha vida, quando comecei a trabalhar nos meados de 1995, os discos já estavam saindo do mercado. Mas ainda me encanta perceber que o primeiro semestre de um ano, e o lado A de um disco, são absolutamente diferentes do lado B.

Talvez eu comece a dividir o ano em Lado A e Lado B pra sempre. Mas acho que com o tempo vai ficar complicado demais explicar que em algum momento da história, precisávamos separar as musicas em lados. Assim como fica complicado chamar de álbum um set list de músicas que tu baixa na internet. Acho que envelhecer é aceitar essas mudanças.

É sempre complicado entender, ao menos pra mim, como é o melhor jeito de aceitar que envelhecemos. A única coisa unânime nesse processo é que, não consigo ser otimista com coisas que vi dar errado repetidas vezes. Envelhecer é por certo, sofrer um desgaste nas vértebras e ficar mais baixo. Ter orelhas que nunca param de crescer e um pessimismo que nubla nossa visão do mundo.

Quando comecei o texto estava pensando em Neruda, "El libro de las Preguntas". Eu sei, não faz muito sentido essa minha associação, mas era um livro que deveria estar ali na cabeceira da cama. Pela janela eu vejo o sol nascendo e isso parece o chiado de quando acabou o primeiro lado do disco. Hora de virar, hora de tentar dormir...

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Teoria das Verdades Tridimensionais

Das várias coisas que apenas os momentos "mesa de bar" proporcionam. Eis uma teoria que desenvolvi entre um e muitos copos de cerveja.

Verdades não são planas, são tridimensionais.

Para tentar explicar vou usar o seguinte modelo: Imaginamos um dado. Sabemos que o dado é um cubo e em cada um dos seus 6 lados esta gravado um numero de 1 a 6. Consideramos que essa é uma verdade imutável e chamaremos de "O Fato". No dado, o numero oposto ao numero 1 é o numero 6, do numero 2 é o numero 5 e do numero 3 é o numero 4. Esse fator é também é imutável.

Reunimos em uma mesa de quatro lugares, quatro pessoas com o compromisso de não mentir sobre os aspectos que observarem sobre "O Fato". Essa situação também será imutável.

O dado é lançado e o numero 1 fica com a face voltada para cima. Temos então a seguinte ordem sobre "O Fato":

- Nenhum dos quatro indivíduos pode mudar a posição do dado.
- Os quatro indivíduos conseguem ver que a face voltada pra cima é o numero 1.
- O numero 6 ficou com a face escondida e, portanto nenhum dos quatro indivíduos consegue vê-lo.
- Cada um consegue ver a face voltada em sua direção.

Apesar da matemática simples que gira em torno da figura do dado, devemos levar em conta que só vale como informação real sobre "O Fato" aquilo que cada individuo realmente observou. Não podemos considerar como verdadeira nenhuma dedução, por mais obvia que seja. Partimos do principio que cada um tem a seguinte informação sobre o "O Fato":

O Individuo "A" consegue observar a face numero 1 e a face numero 2.
O Individuo "B" consegue observar a face numero 1 e a face numero 3.
O Individuo "C" consegue observar a face numero 1 e a face numero 4.
O Individuo "D" consegue observar a face numero 1 e a face numero 5.

Sob a condição de não mentir e nem usar de deduções, fica claro que cada um dos indivíduos pode observar apenas 2 faces das 6 que representam o dado. Ou seja, apenas 30% dos fatos foram realmente comprovados para que as verdades individuais fossem formadas. Se perguntado sobre a verdade sobre "O Fato", o individuo "A" dirá 1 e 2, e esses são os seus aspectos sobre a verdade. Se esse individuo "A" tiver sua verdade comparada à verdade do individuo "B", apenas 50% das informações serão compatíveis, e isso colocaria sob duvida a veracidade do "Do Fato". Isso prova que a verdade tem aspectos que muitas vezes fogem ao nosso conhecimento, seja por falta de observação ou por estarem realmente ocultas à nossa condição avaliadora.

Ainda analisando as possibilidades sobre o tema, sabemos que é imutável a condição de cada individuo em não mentir sobre as informações que observaram no dado. Mas e se o individuo "C" e "D" omitirem a informação da face que estava voltada pra si? A regra diz que nenhum deles pode mentir sobre o fato, mas omitir tecnicamente seria contar apenas parte da verdade. Para os exemplos seguintes vamos considerar que: O individuo "C" omitiu parte das informações confirmando ter observado apenas a face que estava voltada para si, a face 4. Enquanto o individuo "D", que também omitiu parte das informações, afirma ter observado apenas a face voltada para cima, que era comum a todos, a face 1. A omissão de parte das informações tornaria a veracidade sobre os aspectos do "O Fato" ainda mais difíceis de serem avaliadas e, portanto a construção de uma verdade absoluta e única menos possível.

Várias Variáveis.

Baseado nas informações que cada individuo coletou, temos a seguinte estrutura sobre "O Fato".

Relação Individuo x Informação

Individuo "A" = Faces 1 e 2
Individuo "B" = Faces 1 e 3
Individuo "C" = Face  4
Individuo "D" = Face  1

O aspecto a ser levado em conta agora é a relação de credibilidade que cada individuo têm em seu grupo de convívio. Com observações individuais distintas, como essas informações serão aceitas no meio social. Por isso, ainda sob a condição de não mentir sobre a informação observada, suponhamos que cada um dos indivíduos precise levar a informação observada na mesa de teste, ao seu grupo de convívio.

O individuo "A" tem credibilidade em um grupo de 10 pessoas.
O individuo "B" tem credibilidade em um grupo de 20 pessoas.
O individuo "C" tem credibilidade em um grupo de 50 pessoas.
O individuo "D" tem credibilidade em um grupo de 100 pessoas.

Consideramos então que, apesar de divergirem em parte da informação repassada, os indivíduos "A", "B" e "D" têm em comum a face 1 como verdade. Enquanto o individuo "C" omitiu a face 1 informando apenas a face 4. É claro que, os indivíduos que não omitiram parte da informação tem uma riqueza maior sobre "O Fato", mas o numero de pessoas influenciadas pelos outros dois indivíduos é maior. E se avaliarmos que o individuo "C" tem plena credibilidade e de fato não esta mentindo, um número considerável de pessoas irá ignorar a verdade sobre a face 1, apenas por ela não ter sido mencionada pela sua fonte confiável de informação. Enquanto um numero ainda maior de pessoas, influenciadas pelos indivíduos "A" "B" e "D" supervalorizará a verdade que têm em comum, a face 1.

Esse pensamento serve para imaginar que, sobre um fato qualquer, existem mais aspectos que aqueles que imaginamos como verdadeiros. Nesse teste modelo imaginamos "O Fato" com um numero pequeno e determinado de variantes verdadeiras, e com a consideração de que em momento algum um fato falso foi colocado em questão. Mesmo que a credibilidade dos avaliadores seja imaculada, muitas vezes os fatos ficam muito distantes daquilo que representa o todo. Das 6 faces observadas no dado, apenas uma delas ficou em plena evidencia. Isso prova que o lugar comum de um fato repetido à exaustão nem sempre comprova a sua importância. A face 1 era lugar comum para todos os indivíduos, não mensuramos a importância de cada uma das faces e por isso, o que ficou oculto tem tanto valor quanto o que ficou explicito.

Sobre a omissão de determinadas faces, nesse caso proposital, pode ocorrer fora deste contexto também, se um dos indivíduos supervalorizar a face que lhe é mostrada com exclusividade. Deixando de observar àquela que é comum para todos. E assim também vale para o oposto, caso um individuo supervalorize a face comum a todos ignorando a face que esta voltada apenas para si.

O que podemos considerar, por fim, é que a verdade não depende dos indivíduos que observam ou avaliam. Mas ela jamais será plana o suficiente para que todos os seus aspectos sejam mensurados e levados em consideração da mesma forma, sob o mesmo ponto de vista. A análise individual nunca irá afetar a verdade, mas pode afetar a forma como a verdade será tratada no meio social. E esse aspecto serve desde uma conversa de mesa de bar, ou questões complexas, de como as religiões lidam com suas verdades, ou como a imprensa lida com a informação. Antes de avaliarmos, como indivíduos observadores ou como indivíduos que recebem a informação, devemos tentar mensurar a importância de cada um dos aspectos apresentados. E ainda tentar sempre aceitar que a perspectiva de um determinado individuo pode ser diferente da nossa, sem que ele esteja faltando com a verdade ou mal informado sobre os fatos. O que quase sempre resultará em verdades parciais, e tornando inviáveis as tais verdades absolutas.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Sobre Estrelas e Saudades

Sempre ouvi que 'Saudade' é uma palavra exclusiva das línguas latinas. Da origem arcaica do latim 'solitas'. É curioso como as palavras ganham vida e significados com o tempo.

Acho que o homem dividiu o tempo em Passado; Presente; Futuro; imaginando uma forma de justificar suas saudades. E desde então não cansamos de criar expectativas com relação ao futuro, baseado nas perspectivas que temos sobre o passado. Dia desses, zapeando com o controle remoto, me chamou a atenção um programa que falava sobre aspectos e características das civilizações antigas. Esse assunto sempre prende minha atenção, principalmente porque quase tudo é baseado em pequenas deduções de "achismo". E assim esses grandes homens da ciência, criam verdades, e suas verdades dão embasamento para que outros homens criem outras verdades. Quase tudo é dedução, hipótese.

Uma verdade: No final da década de 90, o telescópio Hubble captou imagens de uma galáxia 13 bilhões de anos luz da Terra. Veja que irônico, pois se a luz dessa galáxia demorou 13 bilhões de anos pra chegar até as lentes do telescópio, estávamos então observando o passado de estrelas e planetas que possivelmente não existiam mais. A ironia de contemplar cientificamente uma saudade, sem deduções rasas.

Contemplar o passado é especialmente gratificante. Olhando as estrelas no céu à noite, ou um álbum de fotografias da infância. Das pinturas rupestres de uma caverna ou do sorriso e seus motivos, publicado ontem em alguma rede social. Esse é o nosso ponto de ligação ao passado, às memórias afetivas. Astrólogos calculam mapas astrais, astrônomos observam o passado longínquo de galáxias mortas. Que curiosa saudade daquilo que não vivemos.

Ironicamente, às vezes sentimos saudades das expectativas que criamos com um possível futuro. E pra isso o homem ainda não inventou um local no tempo/espaço. Um passado paralelo sobre um futuro imaginado. Mas isso são deduções, dessas que grandes homens se utilizam pra criar verdades cientificamente hipotéticas.

Ainda sobre estrelas:

Quando eu era criança gostava de olhar as estrelas. Não lembro exatamente se pensava em viagens espaciais em uma roupa de astronauta, mas lembro de sentar em frente a minha casa com uma pequena caderneta, e anotar tudo que eu via de diferente. Eu sabia o horário e os dias da semana dos vôos comerciais, sabia o horário e o local onde poderia ver o movimento de um ou outro satélite. E havia uma inocente e sincera esperança de que os pedidos feitos pra alguma estrela cadente se realizasse.

Sinto saudades dessa sincera esperança.

Curioso, a palavra 'sincero' também é de origem latina. Quando os artistas esculpiam na rocha, usavam uma espécie de cera pra corrigir as eventuais falhas. Uma escultura perfeita, sem nenhuma falha, era uma escultura sem cera. Assim, fica mais difícil calcular, sem deduções e hipóteses, se a saudades de agora são realmente sinceras...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Pensamentos Soltos de Um Saxofone Quieto...

Acho estranho olhar o céu e não ver estrelas. Não, não é o tempo que promete chuva. É toda essa fumaça. As luzes da cidade que vistas de cima deixam as ruas com um estranho tom de fogueira. Daqui de cima, procuro estrelas e só encontro uma cidade que dorme, ou finge que dorme, em sua fogueira de luzes artificiais. De vidas tão artificiais quanto o sabor de queijo na pipoca, que fiz agora de um jeito nada convencional no micro ondas.

Talvez o convencional seja exatamente isso; O artificial.

Tenho um saxofone e me encanta o quanto ele brilha. Um instrumento imponente em sua aura dourada. Tenho um saxofone que não toco. Primeiro porque sou um desastre e segundo porque o barulho incomoda os vizinhos. Sei que incomoda, sei que é um barulho chato. O que faço com ele ta longe de ser música, talvez se fosse música não incomodasse tanto, talvez se eu tocasse com mais freqüência o barulho iniciasse um processo de metamorfose, até sair do casulo, música. Mas estamos ancorados em um cíclico 0x0.

É uma equação simples, mas parece que nenhuma das partes esta afim de quebrar o gelo. Talvez porque quebrar o gelo faria muito barulho.

Sabe uma ironia.? Eu não fumo, mas às vezes fico me imaginando sentado no alto do prédio do lado, fumando enquanto vejo as estrelas. O curioso é que tenho medo de altura, e isso só torna o pensamento ainda mais absurdo. Eu não fumo, não ficaria em paz lá em cima, e eu sei, não da pra ver nenhuma estrela no céu dessa cidade em chamas.

Não tem grama nem aqui e nem nos prédios vizinhos, então talvez seja a capacidade de adaptação me dizendo que o terraço do prédio vizinho é mais legal que o meu.

Ainda sobre o saxofone, sabe o que é curioso.? Por mais imponente que seja esse instrumento dourado e elegante, ele não produz som nenhum sem uma lasca fina e precisa de bambu. Exatamente, debaixo da boquilha fica presa uma peça chamada de palheta. É a vibração dessa palheta que ressoa dentro do corpo do instrumento produzindo som. E por incrível que pareça, essa pequena palheta de bambu, da vida ao instrumento imponente e dourado sem levar a fama.

Os detalhes quase imperceptíveis fazem tanta diferença ás vezes. No dia a dia, estamos tão acostumados às convenções e cordialidades que alguns detalhes ficam escondidos, como a palheta de bambu debaixo do metal dourado. Esquecemos que às vezes um sorriso pode ser mais sincero que um discurso inteiro de frases feitas. Mencionar a importância da palheta de bambu não desmerece a habilidade de quem forjou o metal, muito menos o talento de quem toca o instrumento. Mas valoriza um detalhe fundamental no todo.

Por mais piegas que isso soe, é preciso alguma sensibilidade pra perceber a beleza dos detalhes. Pra entender que uma canção precisa de cada singela nota. Assim como é preciso sensibilidade pra ler um poema e entender o contexto daquilo que a metáfora diz, ou daquilo que a metáfora moldou em uma lasca fina de bambu pra não dizer nada. É preciso entender que o encanto pode estar no silêncio depois do riso, na cara de sono de quem se quer bem, nos detalhes que não podem ser explicados de um bem querer de notas soltas.

Terminando esse texto me dei conta que das tantas metaforas que usei, talvez estar no terraço do prédio vizinho, sem cigarros ou estrelas, seja um jeito interessante de olhar pra dentro da janela de onde surgem todos esses pensamentos. Assim, sentir medo de altura deixa de ser um detalhe importante. Talvez seja só um jeito artificial de estar em um outro lugar.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A Licença Poética dos Rascunhos Escritos à Lápis

"Pra entender basta uma noite de insônia, um sonho que não tem fim"

Acordar no meio da noite nunca foi um castigo, quando o resultado são momentos positivos de introspecção. Sentar na sacada sem se importar com o frio, sem evitar uma dose de uísque sem gelo; Sem evitar escrever outro poema. Talvez um daqueles rascunhos que nunca será passado a limpo. Cumplicidade talvez seja isso, conseguir em uma única palavra dar o tom pra uma vida toda, sem ao menos dar as caras. Sem a consagração autoral de uma obra escrita a lápis no papel de pão.

Quando criança, pra desespero da minha mãe, eu destruía quase todos os meus brinquedos. Com muita cola e alguma criatividade quase sempre consertava de novo depois, mas destruir/reconstruir sempre foi o melhor jeito de entender como as coisas funcionavam. Ainda faço isso toda vez que planejo uma nova receita de cerveja, ou um poema que precisa de rimas e versos pra virar canção. - Um problema que parece sem solução. Faço a autopsia de quase tudo, e no meio dessas engrenagens, vísceras e sangue, rimas e acordes, encontro o mecanismo que move cada impulso, cada sentimento. Sem a perspicácia ou o preciosismo de que tudo volte ao seu devido lugar.

Não sei se é mania ou particularidade, mas essa perspectiva de olhar pra dentro e procurar respostas ainda é mais efetiva que esperar respostas de fora. Acreditar que o tempo irá mudar a ordem das perguntas e consequentemente as respostas virão pelo correio fazendo toda a diferença. -Ou que tudo continuará sem sentido. O segredo sempre foi esse, construir muros, desconstruir muros. Construir ideais; Sonhos; Defeitos; Qualidades; Desconstruir e reconstruir. Um ciclo 'ad infinitum' de se prender e se soltar. Como se apenas a imagem da chuva molhando a terra, vista pela janela nunca será suficiente. Mania ou não, sempre foi preciso ir até lá e sujar as mãos de barro.

Nos rascunhos perdidos, esses escritos no papel de pão, não há espaço pro peso das vaidades. É preciso apreciar cada erro como se tudo fosse licença poética.

Tenho medo de vaidades; Tenho medo de quem coleciona troféus e não coleciona cicatrizes. Rótulos coloridos pra chamar a atenção e vender aquilo que não tá dentro da garrafa. Talvez seja inocência pensar assim, mas dentro dos muros não tenho consciência das trapaças e não quero ganhar ou perder em jogos de vaidades. Fora do muro, quero procurar os que se parecem comigo, sem julgamentos narcisistas de certo ou errado. Me encantam esses que tem a alma rasgada e cicatrizada. Esses que podem entender a necessidade de gritar alto um sonho ruim, ou de sussurrar um poema de amor. Construir e desconstruir muros me fez perceber o valor dessa sintonia que vai alem da simples comunicação, de palavras ditas a esmo e de conversas vazias. Cumplicidade talvez seja isso, conseguir em uma única palavra quebrar o muro e dar cara a uma vida, sem nem mudar o tom de voz.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Contradições Existenciais de Bolso

Quem é você.?

É isso que ouço o tempo todo. Quando chega o fim do dia e pouco a pouco as luzes vão se apagando, ficando apenas o sinal fraco de um relógio despertador. Quem é você que se acha digno de uma noite justa e pacífica de sono.? Quem é você que se acha honrado o suficiente pra desejar sonhos bons.? Nenhuma resposta basta, nenhuma é convincente.

Poderia dizer: Eu sou Miguel de Cervantes com seu Dom Quixote das causas perdidas, acreditando que vencer moinhos de vento me livrará dos verdadeiros gigantes que atormentam o dia a dia. Inventando coragem onde só existem tijolos pesados de medos e magoas. Numa busca cega pela aventura que daria algum sentido à vida, aos dias que como areia escapam pelos dedos.

Mas não é suficiente...
O sono demora vir, os sonhos bons são distantes e opacos. E a luz do dia obriga uma luta menos nobre que de Cervantes. É dinheiro que buscamos, não é paixão nem glória. É o ouro que trará luxos que vida alguma realmente merece, tampouco carece.

Mas o espelho não perdoa nossas rugas, o tempo não perdoa nossos dias de luta ou nossas noites mal dormidas. E o reflexo não poupa a pergunta: Quem é você.? Vestindo a mesma roupa, caminhando os mesmos caminhos, pelos mesmos sapatos. Uniformizado para uma vida de faz de contas. Sapato lustrado, camisa passada, e uma máscara ensaiando sempre o mesmo sorriso vazio. Quem é você.? Correndo contra o tempo, dedicando tua força e juventude a erguer castelos para abrigar sonhos alheios, enquanto os teus dormem ao relento.? Quem diabos é você.?

Eu sou Saint-Exupéry com seu principezinho, vagando pelo cosmo dos planetas enfadonhos. Buscando inocente um sentido maior pra solidão de vulcões e baobás. Entre o encantamento dos pequenos e singelos detalhes, e a decepção de um mundo sisudo e cego à tudo que não se pode comprar.

Mas não, não é suficiente...
Sou então Maquiavel, na existencial dúvida entre ser temido e ser amado. Pela segurança que o medo oferece, ou pela fragilidade à que o amor lhe conduz.
Mas não, pois sou também Bakunin, na ânsia pela liberdade em seu estado pleno. Abrindo mão de quaisquer autoridades que aprisionem o ser humano, seja física ou intelectualmente. Desses olhos cansados da injustiça do forte subjugando o fraco, do ouro subjugando a honra.
Mas eu sou também um Neruda comunista, cravado como rocha em minha ilha, escrevendo poemas de amor pra uma alma, que o mar do tempo leva e traz.
Não, não é suficiente, pois horas sou Kerouac sem destino e sem medo de correr riscos pelo prazer que eles proporcionam.

Mas os devaneios são capítulos de um livro de bolso, editado sem compromisso, sem paciência. E o fim do dia repete a mesma ânsia de respostas e perguntas. E mesmo que haja tanto a se dizer, nenhuma resposta tem encaixe e nenhuma pergunta é justa. Na sala a TV fala sozinha como se a plateia aplaudisse. Quem é você? Se o teu pão já não mata a fome, nem teu vinho abranda a sede. Inventando respostas em contradições, tantas e tantas contradições que só escondem a verdadeira carne crua debaixo da máscara.

E assim chega ao fim mais um dia. A luz fraca do radio relógio ilumina um canto da sala, onde uma silhueta se forma quieta. Vultos numa brincadeira entre luzes e sombras. Vultos, apenas vultos. Quem sabe quando o sol nasça, os mesmos vultos também se perguntem quem são...

domingo, 5 de maio de 2013

Desistir ou Não.?

Dia desses me perguntaram se eu já tinha pensado em desistir. A pergunta tinha um foco que não merece atenção agora, mas enfim, na hora respondi que não. Realmente não havia pensado em desistir.

Mas pensar em desistir é orgânico e elemental. É o paradoxo daquilo que te faz dar o próximo passo. Ninguém atravessa o rio se já sabe o que tem do outro lado. E tendo decidido atravessar, pensar em desistir é fundamental pra mensurar a necessidade de saber o que há do outro lado. Porque essencialmente cruzar o rio nem sempre é uma obrigação e nem sempre vai valer a pena.

Quando pensei em desistir da faculdade de Geografia, fiz uma das grandes escolhas da minha vida. Eu imaginava que ser professor seria do caralho. Ter nas mãos uma porção de mentes jovens abertas pra que eu pudesse subvertê-las de forma positiva. Errado, não era disso que eu precisava. Eu escolhi certo quando decidi me dedicar a uma carreira profissional estável, que por bem ou por mal, me rende frutos até hoje. E que nos últimos anos me proporcionou a vivência que tenho hoje e francamente, apesar dos pesares, me orgulho muito de ser quem eu sou.

Naquele momento o julgamento de certo ou errado era mais simples do que mensurar o futuro todo. Obviamente se eu soubesse que seria assim, não teria esquentado tanto a cabeça na hora de decidir se deveria desistir ou não. Mas na época era só um cara jovem que precisava de grana. Escolhi a grana e deixei de lado as futuras mentes prontas pra minha subversão. Ponto pra mim.!

Hoje é mais fácil entender que pensar em desistir é aquilo que te move a avaliar se o caminho escolhido é o certo. Se tu nunca pensar em desistir, acaba ligando o piloto automático pra varias coisas importantes. Coisas que deveriam passar por uma avaliação mais severa. A vida não da muito espaço pra que a gente cometa erros, mas também não é tão madrasta que não nos permita pequenas correções de rota.

Pensei nisso quando vi uma guria bonita usando uma camiseta com a frase "Nunca desista". Gurias bonitas me chamam mais atenção do que frases em camisetas, mas essa me fez pensar em uma intervenção metafórica, "Hey, desista, tem coisas que não valem a pena". Nesses dias de turbulência alguém me diria que isso é meu suprassumo derrotista. E eu como bom teimoso diria que é meu suprassumo coerente. Porque realmente na vida a gente vai se encontrar varias vezes no meio de um caminho que não vai levar à lugar nenhum. Por isso, mesmo que voltar seja meio bobo e cansativo, seguir adiante pode ser ainda pior.

Lembro de um dia em que alguém me pediu com uma voz cansada e rouca, dessas que precede o sono. "Todo mundo sempre desiste. Não desista de mim" ela disse. Eu num fôlego de coração apertado prometi nunca desistir...

Não acho que seja hora de mensurar se vale a pena ou não atravessar esse rio. A correnteza é tão encantadora quanto a margem do outro lado.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Mensagem na Garrafa

    Não sei se posso classificar isso como uma crônica. Acho que faria mais sentido se fosse só uma carta dentro de uma garrafa. Alguém longe daqui encontraria e seria então um ato solitário de compartilhar experiências, sem o peso de qualquer julgamento. Talvez assim ficasse a imagem longínqua de dividir sonhos e devaneios; Sonhos como os que acabei de ter, devaneios de cada dia.

    Agora são 04h20min e acordei sem ar. No sonho eu estava caído no chão perto de um muro, alguém pisava em minhas costelas. No começo do mesmo sonho eu colocava esparadrapo na ponta dos dedos, esse sempre foi o meu ritual antes dos jogos de basquete. Um anel celta no polegar que prendi junto a corrente do Mjolnir. Coisas do passado e do presente. O jogo tava começando e dessa vez eu me sentia especialmente pronto pra jogar. Alguém que eu queria muito ver jogaria no mesmo lugar, mas eu não podia me aproximar. As pessoas se mostraram hostis à minha presença, uma agressividade que eu entendia e talvez até achasse justa. Defendiam um dos seus. Mas eu só queria ver aquela pessoa, mesmo que a distancia. A agressividade aumentava quanto mais perto da quadra eu chegava. Fui arrastado por um grupo, me derrubaram contra o muro. E sem ar, acordei ainda sentindo uma dor estranha nas costelas. 

    Não entendo de sonhos, não sei explicar o que fica escondido nas entrelinhas disso que o subconsciente joga pra fora durante o sono. Mas sei que há dias em que a vida parece um roteiro de novela idealizado por Murphy. E 'ocasionalmente' tudo que acontece tem enormes chances de gerar expectativa, pra que no final tudo de errado. E na pratica 'pagar os impostos' e ser um bom menino não te livra desses dias.

    Em um desses dias, que parecia ser só um dia ruim (com alguns requintes de crueldade). Pessimismo e uma boa dose de auto piedade me fizeram sair de casa. E com o "Foda-se" ligado, não dei a mínima pra garoa fina que caia. Na primeira esquina encontrei um cachorro de rua, não entendo de cachorro mas, parecia um pastor alemão velho e magro. Esperei o sinal fechar pra seguir o caminho, ele sentou do meu lado e de um jeito que talvez ninguém mais entenda, disse que iria comigo. Naquele momento éramos então amigos, dois perdidos, cachorros de rua sem ter pra onde fugir. A chuva aumentou e o cachorro continuou me seguindo como se soubesse o motivo de cada passo. Hoje lembrando isso, não sei quem seguia quem naquela noite. Ao menos ele parecia livre pra escolher.

Eu já acreditei na liberdade.

    Já acreditei também que sabia o que era liberdade sem entender que de fato não era livre. Com isso aprendi que alguém que nunca se pergunta o que é de fato ser livre, não é livre de verdade.

    Conheci poucas pessoas livres. Certa vez uma delas tentou me mostrar o mundo lá fora, imaginando que isso me encheria de entusiasmo pra sair voando. Eu vi o mundo e quis muito sair voando. Com o tempo percebi que voar, nisso que eu entendia como liberdade, era deixar pra trás todas as amarras e algumas das pessoas que eu amava. Quanto mais perto da porta, mais as pessoas sofriam. Quanto mais a brisa fresca do mundo lá fora tocava meu rosto, ao olhar pra trás, eu via pequenos mundos sendo destruídos por minhas correntes quebradas. Ser livre fazia muita gente sofrer.
Quando faltavam poucos passos, eu seguia ouvindo a voz daquela pessoa me dizendo que eu tinha que ser livre, que eu podia ser livre, que eu precisava ser livre. Mas quando eu olhei pra ver de onde vinha a voz, percebi que era de uma cela, de correntes e grilhões. Aquela pessoa escolheu estar lá e ninguém pode julgar seus motivos.

    Eu já acreditei na liberdade. E hoje entendo quem escolhe se prender. Entendo o cachorro de rua que me seguiu. E hoje sempre que faço o mesmo caminho, com ou sem chuva, fico procurando aquele meu amigo, pra mais uma caminhada livre de culpas e julgamentos. Uma caminhada curta mas infinitamente livre, sem destino certo, como uma mensagem enviada em uma garrafa...