quinta-feira, 10 de abril de 2014

Tocando 'Like A Rolling Stone' na Máquina de Escrever

A vida muda, com a frequência em que Bob Dylan muda as letras de suas músicas. E honestamente, minha esperança é acreditar que essa seja a melhor parte...

Mas é sempre curioso imaginar o tempo como algo linear. Pois em um dia meu medo era o alistamento militar e meu encantamento os 'discos' que tinham todas as músicas no mesmo lado. E em um piscar de olhos, nem tão velho nem tão jovem, mudamos de século, de milênio até, e assim sem regras nem fim do mundo, pouca coisa mudou de fato. No novo milênio meu medo era conseguir pagar todas as contas sem pedir arrego, e curiosamente, conseguir aquele vinil do Pink Floyd pra ouvir junto com 'O Mágico de Oz'.

Mudaram as regras gramaticais e eu ainda faço um puta esforço pra lembrar a forma correta de conjugar os verbos. Mudaram as tecnologias e eu ainda guardo em algum lugar a minha máquina de escrever portátil, que curiosamente, de portátil não tem nada. Mudaram também as formas como a informação se espalha, em uma política curiosa de quanto menos papel melhor, com a urgência do 'just in time'. E apesar disso tudo, ainda me encanta escrever usando lápis em cadernos sem pauta.

Me encanta ter ainda o primeiro disco que ganhei aos 8 anos, e me encanta ter crescido vivendo a magía de um aparelho de som com duplo deck.

Caminho pela rua e vejo um mundo completamente dependente de parafernálias tecnológicas com telas touchscreen e bluetoths. Nessas horas confesso intimamente, houve um tempo em que até telefones celulares pareciam desnecessários e complexos pra minha cabeça ingênua. Mesmo passando a maior parte da vida trabalhando com tecnologia, é a simplicidade que me encanta. Não sou desses apaixonados pelo vintage, sou só um pouco velho por dentro. Não tenho culpa, cresci vendo estes filmes onde o mocinho fuma um cigarro com o pé encostado no muro, olhando o mundo por cima dos óculos escuros. E em meio as dúvidas sobre sua jornada, sempre aparece um velho sábio, que já foi mocinho em outro filme, lhe mostrando com clichês e frases feitas, o melhor caminho.

'Sexo, drogas e rock n roll' não era vintage e o mocinho do filme esbanjava aptidões heroicas, mesmo quando quando seu 'velho guru' era só um errante bêbado. Os anos 80 não eram vintage e eu era só um guri careta, que não gostava de Led Zeppelin e nunca teve saco pra decorar a letra de Faroeste Caboclo. E talvez pelo olhar inalcançável das meninas bonitas da 8º série, nas minhas infantis ilusões, nunca me serviu a fantasia de mocinho. Não bastavam os devaneios e poemas que confessei aos tipos da máquina de escrever, nem meu precoce conhecimento sobre astronomia. Não havia vaga de herói nesse filme, no meu filme, e por me faltarem boas piadas, me bastou ser o errante.

É sempre difícil não imaginar o tempo como algo linear, e cada história, uma página datilografada as pressas, sem o direito de usar o backspace pra corrigir pequenos enganos. E assim como placebo, inventamos um marca textos destacando linhas a esmo, quando na verdade, só queremos tirar a atenção dos espinhos do texto. E por isso, se somos todos o clichê de um livro aberto, de uma história tão exposta, tão explícita, sempre haverá capítulos rabiscados e páginas arrancadas. É melhor assim, acredite.

Nem tão jovem, nem tão velho, mas o século mudou, o milênio também. Não servi o exército e consegui vários discos do Pink Floyd. Abri mão de trabalhar com tecnologia. Nenhum velho, mocinho de outro filme, apareceu com conselhos que mudassem o rumo da minha história. E talvez por isso, no fundo, tive que ser meu próprio velho.

Talvez Bob Dylan mude tanto as letras de suas músicas, porque sabe que não pode mudar o motivo de tê-las escrito.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Pelas Janelas, Eu e Minha Circunstância...

Às vezes o caos é o único caminho. É engraçado, passei os últimos 30 minutos olhando a tela do computador, com o bloco de notas aberto, sem imaginar nada importante que pudesse ser dito/escrito, apesar de sentir essa imensa urgência em escrever. Na noite passada acordei de um sonho estranho, saí da cama e escrevi o último verso de uma canção que eu já tinha desistido de terminar. Foram quatro linhas sem nenhuma rima, mas era exatamente a engrenagem que falta pro mecanismo da canção inteira funcionar. Acho que a vida é isso, tudo que acontece quando a gente não espera que nada mais de relevante possa acontecer. Como ficar esperando e contando cada gota que cai do conta-gotas do remédio, sem sequer estar doente. Mas o fato é que a gente não espera que algo aconteça entre uma gota e outra, ninguém mensura o acaso.

Pode parecer pessimismo, talvez a vida seja isso mesmo, o que acontece no intervalo do conta-gotas mas parece tão pueril que não se pode perceber.

Lembrei-me de ter dito em algum momento ébrio, não lembro exatamente quando, que a vida é como uma grande mesa de bar com algumas cadeiras vazias.

Basta se imaginar em um bar muito cheio, a vida é um pouco assim.! Às vezes o pedido demora pra sair e às vezes não era exatamente como dizia no cardápio. Quando tua mesa tem cadeiras sobrando, vez ou outra sentam nela pessoas que tu não conhece direito, amigos de amigos, amigos dos amigos dos amigos, alguém sempre ocupa esse espaço temporariamente até que algo "melhor" aconteça. A atividade na mesa do bar não tem uma pausa pra que o garçom traga a próxima cerveja, e há quem não beba cerveja e siga como peça fundamental na atividade da mesa. As conversas não cessam quando tu precisa ir ao banheiro, e se tu perdeu a piada, deixa pra lá, porque outras virão e tu pode ser o motivo delas.

Não há lugar melhor no mundo pra resolver questões complexas da vida, ou os problemas do mundo, do que a mesa de um bar. A mesa do bar é o confessionário em que até os ateus se rendem. É onde a fé e a ciência pesam sem culpa na mesma balança e disputam alguma credibilidade ao lado de indiferenças e 'achismos' ébrios. É onde anjos e demônios se despem de suas armaduras e armas, compartilhando da mesma garrafa, sem nenhum pesar. Não há mentiras ou verdades absolutas em mesa de bar, tudo é relativo, é onde matéria e anti matéria não se destroem. Apenas se juntam pra compartilhar o que tiverem de melhor e pior. A mesa de bar não é justa. É onde tudo pode ser dividido sem pesar. É onde não existem heróis sem defeitos, ou vilões sem grandes qualidades.

E na mesa do bar, assim como na vida, às vezes tudo parece imensamente mais sedutor na mesa ao lado...

Enfim, acho que essa história toda, como todas as minhas outras teorias, só faz sentido quando não precisa fazer nenhum sentido pra parecer interessante. Dessas coisas que não vou contar pros meus netos enquanto tomo tranquilamente meu chimarrão, fingindo ser uma inabalável estrutura de virtudes.

Dos hábitos estranhos que tenho durante a madrugada, nas noites de insônia, sempre me bate uma puta vontade de tomar chimarrão. Mas o mate tira o meu sono de um jeito único, e nem café, nem as contas à pagar têm o mesmo efeito. Invariavelmente, nunca evito esses pequenos delitos. Da janela do apartamento eu fico vendo os aviões que passam no horizonte, e passo o tempo inventando histórias pra um alguém imaginário que tá indo pra algum lugar, ou fugindo de alguma coisa que não se pode evitar. Como um chimarrão que tira o sono, em uma noite de insônia.

O mesmo acontece quando, viajando, o avião começa a sobrevoar as luzes alaranjadas de uma cidade estranha. Fico imaginando alguém na sacada do apartamento, com insônia, fumando um cigarro ou tomando um mate e inventando histórias pras pessoas de dentro do avião. Que história esse alguém reservou pra mim.? Seriam melhores que a minha própria história, ou melhores que as histórias que inventei pra outros estranhos.? E quem sabe, quantas vezes já bebemos ou beberemos, sentados em mesas diferentes no mesmo bar.?

Talvez a vida seja isso, o acaso de uma história em que tu procura se encontrar, se encaixar como a peça de um grande quebra-cabeças. Seja pela janela do avião em uma cidade estranha ou na janela do navegador, procurando espaço em outras histórias, de outros estranhos que perderam o sono e se puseram a escrever. Talvez na janela do editor de textos, procurando as palavras certas pra verbalizar aquilo que é tão facil sussurrar no amanhecer do dia.

Mas não, ninguém mensura o acaso.

Era isso que José Ortega y Gasset queria dizer com "Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim."...??? Essa é a hora em que o caos abraça o acaso, pra uma última dança, sem pressa, assim entre uma gota e outra...

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Insônia e Conversa Pra Boi Dormir

Qual o sentido da vida.? Qual a cor do universo.? Qual o melhor horário pra conversar com as plantas.?

Não sei sobre o que escrever, mas a insônia me jogou pra frente do computador e com uma urgência de dizer alguma coisa importante. Resoluções de fim de ano, metas, promessas, perspectivas.? Não sei, qual a cor da vida, e o sentido do universo.? Tudo parece ter a mesma importância agora.

Na cabeceira da cama, entre a bagunça de carregadores de celular, passaporte e gaitas de boca, há alguns livros. A maioria desses livros eu ainda não li e fico enrolando porque acho que ainda não é hora. Eu não sei explicar qual é a hora certa pra começar a ler um determinado livro, de um determinado autor. Soa tão vago quanto perguntar qual o melhor horário pra conversar com as plantas, ou qual o momento exato de descascar uma laranja. Pra insônia que tem me acompanhado nesses dias, li de novo o "Memórias de minhas putas tristes". Já perdi a conta de quantas vezes li esse livro, e não sei dizer qual é a hora de parar. Tudo parece acontecer na hora errada ultimamente.

Nesse momento estou na casa da minha mãe, e isso traz sempre algumas sensações peculiares. Vivi aqui por alguns anos, mas tá tudo tão diferente que é como estar em um quarto de hotel. Quartos de hotel são sempre diferentes, mas, particularmente iguais. Quase como um suco de laranja que é exatamente igual a todos os outros, sem se parecer em nada com todos os outros. Eu sei, é bobagem. Quartos de hotel e sucos de laranja são como são, depende sempre do ponto de vista.

Nos últimos dias tenho viajado um pouco e os quartos de hotel às vezes se parecem com o quarto em que durmo, na casa da minha mãe. Mas é estranho acordar sem saber exatamente onde você esta. No próximo ano, não sei exatamente onde vou morar e agora fico com a impressão de que, por algum tempo, vou acordar sem saber se é um quarto de hotel ou se é minha casa. Acho que essa é mais uma dessas perguntas que eu não saberia responder e mesmo que soubesse, não teria a menor relevância.

Não costumo ter metas agressivas e complexas no começo do ano. Acho que as coisas se encaixam mesmo no segundo semestre. O primeiro semestre de um ano é só pra arrumar a bagunça do ano anterior. Na teoria, mas só na teoria. Sempre imaginei o ano assim, simétrico. Como um disco de vinil. Lado A e lado B com distintas propostas. Cresci ouvindo discos de vinil e sempre insisto nessa mágica de que ouvir música é algo complexo. Desde tirar o disco com cuidado da embalagem até o acompanhamento passo a passo do encarte. Os discos eram chamados álbuns, porque era a proposta visual da banda aliada à proposta musical da banda. Eu comprei poucos discos na minha vida, quando comecei a trabalhar nos meados de 1995, os discos já estavam saindo do mercado. Mas ainda me encanta perceber que o primeiro semestre de um ano, e o lado A de um disco, são absolutamente diferentes do lado B.

Talvez eu comece a dividir o ano em Lado A e Lado B pra sempre. Mas acho que com o tempo vai ficar complicado demais explicar que em algum momento da história, precisávamos separar as musicas em lados. Assim como fica complicado chamar de álbum um set list de músicas que tu baixa na internet. Acho que envelhecer é aceitar essas mudanças.

É sempre complicado entender, ao menos pra mim, como é o melhor jeito de aceitar que envelhecemos. A única coisa unânime nesse processo é que, não consigo ser otimista com coisas que vi dar errado repetidas vezes. Envelhecer é por certo, sofrer um desgaste nas vértebras e ficar mais baixo. Ter orelhas que nunca param de crescer e um pessimismo que nubla nossa visão do mundo.

Quando comecei o texto estava pensando em Neruda, "El libro de las Preguntas". Eu sei, não faz muito sentido essa minha associação, mas era um livro que deveria estar ali na cabeceira da cama. Pela janela eu vejo o sol nascendo e isso parece o chiado de quando acabou o primeiro lado do disco. Hora de virar, hora de tentar dormir...

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Teoria das Verdades Tridimensionais

Das várias coisas que apenas os momentos "mesa de bar" proporcionam. Eis uma teoria que desenvolvi entre um e muitos copos de cerveja.

Verdades não são planas, são tridimensionais.

Para tentar explicar vou usar o seguinte modelo: Imaginamos um dado. Sabemos que o dado é um cubo e em cada um dos seus 6 lados esta gravado um numero de 1 a 6. Consideramos que essa é uma verdade imutável e chamaremos de "O Fato". No dado, o numero oposto ao numero 1 é o numero 6, do numero 2 é o numero 5 e do numero 3 é o numero 4. Esse fator é também é imutável.

Reunimos em uma mesa de quatro lugares, quatro pessoas com o compromisso de não mentir sobre os aspectos que observarem sobre "O Fato". Essa situação também será imutável.

O dado é lançado e o numero 1 fica com a face voltada para cima. Temos então a seguinte ordem sobre "O Fato":

- Nenhum dos quatro indivíduos pode mudar a posição do dado.
- Os quatro indivíduos conseguem ver que a face voltada pra cima é o numero 1.
- O numero 6 ficou com a face escondida e, portanto nenhum dos quatro indivíduos consegue vê-lo.
- Cada um consegue ver a face voltada em sua direção.

Apesar da matemática simples que gira em torno da figura do dado, devemos levar em conta que só vale como informação real sobre "O Fato" aquilo que cada individuo realmente observou. Não podemos considerar como verdadeira nenhuma dedução, por mais obvia que seja. Partimos do principio que cada um tem a seguinte informação sobre o "O Fato":

O Individuo "A" consegue observar a face numero 1 e a face numero 2.
O Individuo "B" consegue observar a face numero 1 e a face numero 3.
O Individuo "C" consegue observar a face numero 1 e a face numero 4.
O Individuo "D" consegue observar a face numero 1 e a face numero 5.

Sob a condição de não mentir e nem usar de deduções, fica claro que cada um dos indivíduos pode observar apenas 2 faces das 6 que representam o dado. Ou seja, apenas 30% dos fatos foram realmente comprovados para que as verdades individuais fossem formadas. Se perguntado sobre a verdade sobre "O Fato", o individuo "A" dirá 1 e 2, e esses são os seus aspectos sobre a verdade. Se esse individuo "A" tiver sua verdade comparada à verdade do individuo "B", apenas 50% das informações serão compatíveis, e isso colocaria sob duvida a veracidade do "Do Fato". Isso prova que a verdade tem aspectos que muitas vezes fogem ao nosso conhecimento, seja por falta de observação ou por estarem realmente ocultas à nossa condição avaliadora.

Ainda analisando as possibilidades sobre o tema, sabemos que é imutável a condição de cada individuo em não mentir sobre as informações que observaram no dado. Mas e se o individuo "C" e "D" omitirem a informação da face que estava voltada pra si? A regra diz que nenhum deles pode mentir sobre o fato, mas omitir tecnicamente seria contar apenas parte da verdade. Para os exemplos seguintes vamos considerar que: O individuo "C" omitiu parte das informações confirmando ter observado apenas a face que estava voltada para si, a face 4. Enquanto o individuo "D", que também omitiu parte das informações, afirma ter observado apenas a face voltada para cima, que era comum a todos, a face 1. A omissão de parte das informações tornaria a veracidade sobre os aspectos do "O Fato" ainda mais difíceis de serem avaliadas e, portanto a construção de uma verdade absoluta e única menos possível.

Várias Variáveis.

Baseado nas informações que cada individuo coletou, temos a seguinte estrutura sobre "O Fato".

Relação Individuo x Informação

Individuo "A" = Faces 1 e 2
Individuo "B" = Faces 1 e 3
Individuo "C" = Face  4
Individuo "D" = Face  1

O aspecto a ser levado em conta agora é a relação de credibilidade que cada individuo têm em seu grupo de convívio. Com observações individuais distintas, como essas informações serão aceitas no meio social. Por isso, ainda sob a condição de não mentir sobre a informação observada, suponhamos que cada um dos indivíduos precise levar a informação observada na mesa de teste, ao seu grupo de convívio.

O individuo "A" tem credibilidade em um grupo de 10 pessoas.
O individuo "B" tem credibilidade em um grupo de 20 pessoas.
O individuo "C" tem credibilidade em um grupo de 50 pessoas.
O individuo "D" tem credibilidade em um grupo de 100 pessoas.

Consideramos então que, apesar de divergirem em parte da informação repassada, os indivíduos "A", "B" e "D" têm em comum a face 1 como verdade. Enquanto o individuo "C" omitiu a face 1 informando apenas a face 4. É claro que, os indivíduos que não omitiram parte da informação tem uma riqueza maior sobre "O Fato", mas o numero de pessoas influenciadas pelos outros dois indivíduos é maior. E se avaliarmos que o individuo "C" tem plena credibilidade e de fato não esta mentindo, um número considerável de pessoas irá ignorar a verdade sobre a face 1, apenas por ela não ter sido mencionada pela sua fonte confiável de informação. Enquanto um numero ainda maior de pessoas, influenciadas pelos indivíduos "A" "B" e "D" supervalorizará a verdade que têm em comum, a face 1.

Esse pensamento serve para imaginar que, sobre um fato qualquer, existem mais aspectos que aqueles que imaginamos como verdadeiros. Nesse teste modelo imaginamos "O Fato" com um numero pequeno e determinado de variantes verdadeiras, e com a consideração de que em momento algum um fato falso foi colocado em questão. Mesmo que a credibilidade dos avaliadores seja imaculada, muitas vezes os fatos ficam muito distantes daquilo que representa o todo. Das 6 faces observadas no dado, apenas uma delas ficou em plena evidencia. Isso prova que o lugar comum de um fato repetido à exaustão nem sempre comprova a sua importância. A face 1 era lugar comum para todos os indivíduos, não mensuramos a importância de cada uma das faces e por isso, o que ficou oculto tem tanto valor quanto o que ficou explicito.

Sobre a omissão de determinadas faces, nesse caso proposital, pode ocorrer fora deste contexto também, se um dos indivíduos supervalorizar a face que lhe é mostrada com exclusividade. Deixando de observar àquela que é comum para todos. E assim também vale para o oposto, caso um individuo supervalorize a face comum a todos ignorando a face que esta voltada apenas para si.

O que podemos considerar, por fim, é que a verdade não depende dos indivíduos que observam ou avaliam. Mas ela jamais será plana o suficiente para que todos os seus aspectos sejam mensurados e levados em consideração da mesma forma, sob o mesmo ponto de vista. A análise individual nunca irá afetar a verdade, mas pode afetar a forma como a verdade será tratada no meio social. E esse aspecto serve desde uma conversa de mesa de bar, ou questões complexas, de como as religiões lidam com suas verdades, ou como a imprensa lida com a informação. Antes de avaliarmos, como indivíduos observadores ou como indivíduos que recebem a informação, devemos tentar mensurar a importância de cada um dos aspectos apresentados. E ainda tentar sempre aceitar que a perspectiva de um determinado individuo pode ser diferente da nossa, sem que ele esteja faltando com a verdade ou mal informado sobre os fatos. O que quase sempre resultará em verdades parciais, e tornando inviáveis as tais verdades absolutas.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Sobre Estrelas e Saudades

Sempre ouvi que 'Saudade' é uma palavra exclusiva das línguas latinas. Da origem arcaica do latim 'solitas'. É curioso como as palavras ganham vida e significados com o tempo.

Acho que o homem dividiu o tempo em Passado; Presente; Futuro; imaginando uma forma de justificar suas saudades. E desde então não cansamos de criar expectativas com relação ao futuro, baseado nas perspectivas que temos sobre o passado. Dia desses, zapeando com o controle remoto, me chamou a atenção um programa que falava sobre aspectos e características das civilizações antigas. Esse assunto sempre prende minha atenção, principalmente porque quase tudo é baseado em pequenas deduções de "achismo". E assim esses grandes homens da ciência, criam verdades, e suas verdades dão embasamento para que outros homens criem outras verdades. Quase tudo é dedução, hipótese.

Uma verdade: No final da década de 90, o telescópio Hubble captou imagens de uma galáxia 13 bilhões de anos luz da Terra. Veja que irônico, pois se a luz dessa galáxia demorou 13 bilhões de anos pra chegar até as lentes do telescópio, estávamos então observando o passado de estrelas e planetas que possivelmente não existiam mais. A ironia de contemplar cientificamente uma saudade, sem deduções rasas.

Contemplar o passado é especialmente gratificante. Olhando as estrelas no céu à noite, ou um álbum de fotografias da infância. Das pinturas rupestres de uma caverna ou do sorriso e seus motivos, publicado ontem em alguma rede social. Esse é o nosso ponto de ligação ao passado, às memórias afetivas. Astrólogos calculam mapas astrais, astrônomos observam o passado longínquo de galáxias mortas. Que curiosa saudade daquilo que não vivemos.

Ironicamente, às vezes sentimos saudades das expectativas que criamos com um possível futuro. E pra isso o homem ainda não inventou um local no tempo/espaço. Um passado paralelo sobre um futuro imaginado. Mas isso são deduções, dessas que grandes homens se utilizam pra criar verdades cientificamente hipotéticas.

Ainda sobre estrelas:

Quando eu era criança gostava de olhar as estrelas. Não lembro exatamente se pensava em viagens espaciais em uma roupa de astronauta, mas lembro de sentar em frente a minha casa com uma pequena caderneta, e anotar tudo que eu via de diferente. Eu sabia o horário e os dias da semana dos vôos comerciais, sabia o horário e o local onde poderia ver o movimento de um ou outro satélite. E havia uma inocente e sincera esperança de que os pedidos feitos pra alguma estrela cadente se realizasse.

Sinto saudades dessa sincera esperança.

Curioso, a palavra 'sincero' também é de origem latina. Quando os artistas esculpiam na rocha, usavam uma espécie de cera pra corrigir as eventuais falhas. Uma escultura perfeita, sem nenhuma falha, era uma escultura sem cera. Assim, fica mais difícil calcular, sem deduções e hipóteses, se a saudades de agora são realmente sinceras...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Pensamentos Soltos de Um Saxofone Quieto...

Acho estranho olhar o céu e não ver estrelas. Não, não é o tempo que promete chuva. É toda essa fumaça. As luzes da cidade que vistas de cima deixam as ruas com um estranho tom de fogueira. Daqui de cima, procuro estrelas e só encontro uma cidade que dorme, ou finge que dorme, em sua fogueira de luzes artificiais. De vidas tão artificiais quanto o sabor de queijo na pipoca, que fiz agora de um jeito nada convencional no micro ondas.

Talvez o convencional seja exatamente isso; O artificial.

Tenho um saxofone e me encanta o quanto ele brilha. Um instrumento imponente em sua aura dourada. Tenho um saxofone que não toco. Primeiro porque sou um desastre e segundo porque o barulho incomoda os vizinhos. Sei que incomoda, sei que é um barulho chato. O que faço com ele ta longe de ser música, talvez se fosse música não incomodasse tanto, talvez se eu tocasse com mais freqüência o barulho iniciasse um processo de metamorfose, até sair do casulo, música. Mas estamos ancorados em um cíclico 0x0.

É uma equação simples, mas parece que nenhuma das partes esta afim de quebrar o gelo. Talvez porque quebrar o gelo faria muito barulho.

Sabe uma ironia.? Eu não fumo, mas às vezes fico me imaginando sentado no alto do prédio do lado, fumando enquanto vejo as estrelas. O curioso é que tenho medo de altura, e isso só torna o pensamento ainda mais absurdo. Eu não fumo, não ficaria em paz lá em cima, e eu sei, não da pra ver nenhuma estrela no céu dessa cidade em chamas.

Não tem grama nem aqui e nem nos prédios vizinhos, então talvez seja a capacidade de adaptação me dizendo que o terraço do prédio vizinho é mais legal que o meu.

Ainda sobre o saxofone, sabe o que é curioso.? Por mais imponente que seja esse instrumento dourado e elegante, ele não produz som nenhum sem uma lasca fina e precisa de bambu. Exatamente, debaixo da boquilha fica presa uma peça chamada de palheta. É a vibração dessa palheta que ressoa dentro do corpo do instrumento produzindo som. E por incrível que pareça, essa pequena palheta de bambu, da vida ao instrumento imponente e dourado sem levar a fama.

Os detalhes quase imperceptíveis fazem tanta diferença ás vezes. No dia a dia, estamos tão acostumados às convenções e cordialidades que alguns detalhes ficam escondidos, como a palheta de bambu debaixo do metal dourado. Esquecemos que às vezes um sorriso pode ser mais sincero que um discurso inteiro de frases feitas. Mencionar a importância da palheta de bambu não desmerece a habilidade de quem forjou o metal, muito menos o talento de quem toca o instrumento. Mas valoriza um detalhe fundamental no todo.

Por mais piegas que isso soe, é preciso alguma sensibilidade pra perceber a beleza dos detalhes. Pra entender que uma canção precisa de cada singela nota. Assim como é preciso sensibilidade pra ler um poema e entender o contexto daquilo que a metáfora diz, ou daquilo que a metáfora moldou em uma lasca fina de bambu pra não dizer nada. É preciso entender que o encanto pode estar no silêncio depois do riso, na cara de sono de quem se quer bem, nos detalhes que não podem ser explicados de um bem querer de notas soltas.

Terminando esse texto me dei conta que das tantas metaforas que usei, talvez estar no terraço do prédio vizinho, sem cigarros ou estrelas, seja um jeito interessante de olhar pra dentro da janela de onde surgem todos esses pensamentos. Assim, sentir medo de altura deixa de ser um detalhe importante. Talvez seja só um jeito artificial de estar em um outro lugar.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A Licença Poética dos Rascunhos Escritos à Lápis

"Pra entender basta uma noite de insônia, um sonho que não tem fim"

Acordar no meio da noite nunca foi um castigo, quando o resultado são momentos positivos de introspecção. Sentar na sacada sem se importar com o frio, sem evitar uma dose de uísque sem gelo; Sem evitar escrever outro poema. Talvez um daqueles rascunhos que nunca será passado a limpo. Cumplicidade talvez seja isso, conseguir em uma única palavra dar o tom pra uma vida toda, sem ao menos dar as caras. Sem a consagração autoral de uma obra escrita a lápis no papel de pão.

Quando criança, pra desespero da minha mãe, eu destruía quase todos os meus brinquedos. Com muita cola e alguma criatividade quase sempre consertava de novo depois, mas destruir/reconstruir sempre foi o melhor jeito de entender como as coisas funcionavam. Ainda faço isso toda vez que planejo uma nova receita de cerveja, ou um poema que precisa de rimas e versos pra virar canção. - Um problema que parece sem solução. Faço a autopsia de quase tudo, e no meio dessas engrenagens, vísceras e sangue, rimas e acordes, encontro o mecanismo que move cada impulso, cada sentimento. Sem a perspicácia ou o preciosismo de que tudo volte ao seu devido lugar.

Não sei se é mania ou particularidade, mas essa perspectiva de olhar pra dentro e procurar respostas ainda é mais efetiva que esperar respostas de fora. Acreditar que o tempo irá mudar a ordem das perguntas e consequentemente as respostas virão pelo correio fazendo toda a diferença. -Ou que tudo continuará sem sentido. O segredo sempre foi esse, construir muros, desconstruir muros. Construir ideais; Sonhos; Defeitos; Qualidades; Desconstruir e reconstruir. Um ciclo 'ad infinitum' de se prender e se soltar. Como se apenas a imagem da chuva molhando a terra, vista pela janela nunca será suficiente. Mania ou não, sempre foi preciso ir até lá e sujar as mãos de barro.

Nos rascunhos perdidos, esses escritos no papel de pão, não há espaço pro peso das vaidades. É preciso apreciar cada erro como se tudo fosse licença poética.

Tenho medo de vaidades; Tenho medo de quem coleciona troféus e não coleciona cicatrizes. Rótulos coloridos pra chamar a atenção e vender aquilo que não tá dentro da garrafa. Talvez seja inocência pensar assim, mas dentro dos muros não tenho consciência das trapaças e não quero ganhar ou perder em jogos de vaidades. Fora do muro, quero procurar os que se parecem comigo, sem julgamentos narcisistas de certo ou errado. Me encantam esses que tem a alma rasgada e cicatrizada. Esses que podem entender a necessidade de gritar alto um sonho ruim, ou de sussurrar um poema de amor. Construir e desconstruir muros me fez perceber o valor dessa sintonia que vai alem da simples comunicação, de palavras ditas a esmo e de conversas vazias. Cumplicidade talvez seja isso, conseguir em uma única palavra quebrar o muro e dar cara a uma vida, sem nem mudar o tom de voz.