sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Nem Tudo É o Que Parece

Numa dessas madrugadas de insônia, tava sentado na sacada bebendo uma cerveja, tranqüila madrugada eu diria. Do lado de fora um frio de rachar, do lado de dentro o aquecedor garantia algum conforto. O vidro embaçado fazia a cidade parecer uma infinita fornalha. A luz laranja dos postes somada à distorção do vapor no vidro criava esse efeito de "cidade em Chamas". Aos meus ébrios olhos, naquele instante a cidade ardia. Aos meus olhos, somente. Mas nem tudo é o que parece, a vida é cheia dessas miragens e pode ser perigoso acreditar em tudo logo na primeira olhada, às vezes é preciso dar uma segunda olhada, uma terceira e até uma quarta. Os olhos enganam nossa expectativa, e essa armadilha pode ser perigosa.

Meu calcanhar de Aquiles talvez seja essa miopia na hora de olhar as pessoas. Pra mim, na primeira olhada todo mundo tem um potencial incrível. E por isso muitas vezes me engano, muitas vezes mesmo. Mas há algo de emocionante em correr esse risco. Saltar de para quedas ou se aventurar em novos relacionamentos pode ser arriscado, pode ser fatal até. Mas fora isso, há sempre o risco de sobreviver e gozar de tudo que há de positivo. A vida é uma arvore alta e cheia de espinhos, mas tem muitos frutos, tem muito a oferecer. E são justamente nas pessoas que estão os melhores frutos. E acho que todo mundo sabe o quão saborosa é uma amizade.

O lado negativo disso tudo, é a falta de clareza com que as pessoas vêem este tipo de atitude. Talvez pelo velho e maldito pudor, de acreditar que todo mundo se aproxima com algum interesse. Como as gurias que pensam que todo cara se aproxima com algum interesse sexual. Limitando as relações entre homem e mulher, a uma figura tosca de carne crua e fera faminta. Assim como aqueles caras que tem muita grana e entram numa paranóia de que todos se mantem a sua volta, por algum interesse financeiro. Na realidade tudo isso só materializa esse muro imaginário, que criamos desde a infância, com a finalidade de nos proteger do mundo. Fato é que, do lado de dentro do muro a diversão é limitada. E do lado de fora, o mundo não para um milésimo de segundo sequer, nem pra gente recuperar o fôlego. Saber encontrar o ponto de equilíbrio, parece ser o verdadeiro segredo do universo. A tênue linha que separa o Yin do Yang.

Essa ânsia por conhecer mais pessoas, e de querer conhecer cada vez mais das pessoas que já conheço, leva a algumas conclusões interessantes. Infelizmente algumas vezes um pouco decepcionantes. Como por exemplo a intenção que algumas pessoas têm em parecer o que de fato não são. Alguns chamam isso de falsidade, não acredito que seja exatamente isso em todos os casos. Algumas pessoas são assim porque precisam ser aceitas, porque não tem auto estima ou confiança suficiente para levar adiante o caráter, ou a personalidade que realmente lhes cabe. Assim como as luzes laranjadas, que através do vidro embaçado da janela criam essa ilusão de que a cidade queima numa grande fogueira. Algumas pessoas precisam parecer fogueira, pela dificuldade que tem de aceitar que são na verdade, icebergs. O dínamo dessas questões todas, são as expectativas que criamos. E é inevitável criar expectativas, apesar de ser um pouco infantil acreditar cegamente nelas.

Em uma outra madrugada, pela mesma janela da mesma sacada, via-se uma imensa nuvem de neblina que cobria tudo que ia alem de alguns metros dos olhos. Não era possível ver absolutamente nada alem daquela imensa massa de algodão cinzento. Colando a testa no vidro, a impressão que eu tinha era que o prédio todo estava envolto naquela massa disforme. Era um pouco assustador imaginar que nada poderia escapar dali, ao mesmo tempo em que era tentador imaginar a queda livre. E na confiança da peça que os olhos pregavam, a queda seria calmamente amparada pelo universo macio que o nevoeiro oferecia. Esse é um eterno risco a correr, saber quando a cidade realmente queima, ou quando o nevoeiro é solido suficiente pra amparar qualquer queda. Saber quando as pessoas são luzes laranjadas imitando fogo ardente, ou quando são nevoeiro, enganando nossos olhos. Talvez o único jeito seja arriscar, ou não...???

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Free As a Bird

Há coisas na vida que não são justificáveis. Que fogem do racional poder de escolha. Sentimentos como medo, afeto, simpatia ou desejo. Não há como designar se alguém vai preferir o azul ou o verde. Preferir cães ou gatos. Todo homem carrega o carma de ser irremediavelmente instintivo. Mas há coisas que devem ser levadas em conta: Mesmo que o instinto grite forte que devemos fazer algo, é preciso fazer valer toda racionalidade humana antes de explodir a fera que a genética animal nos deu. Talvez por isso, tantas vezes me esforço pra entender o mundo, procurando motivos factuais e relevantes pra que as coisas aconteçam. As engrenagens por traz de cada movimento, cada pensamento coletivo. A essência pura e simples de cada decisão.

Sou bom observador e isso pode ser um defeito grave pra quem se perde facilmente em devaneios. E desses tantos devaneios, ultimamente tenho percebido como as pessoas solidificam os relacionamentos, seja familiar, de amizades ou amorosos. E me assusta um pouco perceber que a base de tudo, parece ser reflexo dos extremos do egoísmo e da possesividade. Não quero parecer pessimista ou simplista com as minhas conclusões e teorias. Mas a impressão que tenho é de que as pessoas esperam cada vez mais retribuição pelas coisas que fazem. Doação virou negocio, serviço prestado a certo preço a ser cobrado posteriormente, de forma indefinida e quase sempre desmedida e injusta.

Não quero que isso soe como uma indireta, pois não sou disso. O que direi é só uma maneira de usar exemplos práticos pra justificar minha teoria. Todos temos defeitos e qualidades e isso forma nosso caráter. Feito um lego, montado peça a peça. O que aos olhos de uns parece grande virtude, pode expressar indiferença pra outros, e até mesmo um grande defeito. Tudo é questão de ponto de vista e de como se dão as trocas de cada relacionamento. Tenho amigos que só me procuram quando precisam de alguma coisa, sabem disso e continuam nesse estranho habito de acreditar que eu não percebo o claro interesse que rege essa amizade. Em alguns casos obviamente me afasto, não acredito que relacionamentos baseados em interesses unilaterais sejam saudáveis. Mas em alguns casos eu tolero, pois numa balança imaginaria, os bons momentos passados juntos acabam compensando.

Amizades são relacionamentos complexos onde reciprocidade nem sempre é fundamental. Falo de reciprocidade do ponto de vista de que um carinho, um gesto de afeto não deve ser medido ou comparado com um gesto de igual importância. Indiferença e descaso não combinam com amizade. Por isso usei o exemplo dos amigos que só me procuram quando precisam de alguma coisa. Alguns fazem isso por inocência, ou justamente por saber que podem contar comigo nos momentos de necessidade. Outros fazem isso porque nos outros momentos é indiferente o contato. Chamo todos de amigos e de certo cometo uma injustiça com isso, já que não seria prudente colocar no mesmo coração cansado, os bons e os maus amigos. Mas a vida me ensinou coisas importantes, entre elas a não guardar magoas. Quanto menos magoas guardar comigo mais amigos posso carregar pela vida.

Tenho um certo orgulho em falar dos meus amigos. Orgulho também em dizer que muitas das minhas amizades ultrapassam a barreira de décadas. E por mais que isso pareça pouco, uma década é tempo suficiente pra que muita coisa aconteça. Mas amizades são relacionamentos que exigem menor "manutenção" do que um namoro por exemplo. É possível passar meses sem trocar uma idéia com aquele amigo da faculdade. E quando ocorre o encontro geralmente a alegria transforma qualquer tempo em areia. Mas isso não é possível com um relacionamento amoroso, um namoro. E analisando isso, lembro inevitavelmente daquela minha amiga que sempre me chama no MSN quando precisa de uma consultoria de informática. Mas que nunca lembra de me perguntar como esta a vida. Será que ela usa os mesmos critérios, a mesma dedicação egoísta com seus relacionamentos amorosos? Se a resposta for sim, que lastima.

Já disse isso em algum texto passado, ou em algum outro lugar. Os seres humanos nascem sozinhos e morrem sozinhos. Mas vivem muito melhor em bando, em sociedade. Cada ser humano é único, cheio de detalhes que lhe colocam nessa condição. Todo ser humano é livre, ou ao menos deveria ser. Ninguém tem dono, seja amigo, família ou amante. Ninguém pode ser subjugado ou subjugar seus desejos e vontades, pela ditadura imposta por outro ser humano. Principalmente se isso for feito erroneamente em nome do amor. Amor não é isso, amor é outra coisa.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Que Dia é Hoje..??? Tanto Faz.

Não comemorei o dia do Rock e não foi porque não gosto de Rock, mas há em mim algum pessimismo que me faz descrente em relação a datas comemorativas. Pra ser direto, não gosto de datas comemorativas. Talvez exista uma explicação pra tudo isso nos distantes dias de minha infância. Nascer no dia das crianças talvez possa parecer divertido pra algumas pessoas, pra uma criança é um tanto quanto frustrante. Apesar de fazer piada com isso hoje em dia, demorei a entender o motivo de todas as crianças da rua ganharem presentes no dia do meu aniversário, mas eu não ganhar presente no dia do aniversário delas. Hoje em dia acho bacana não precisar trabalhar no dia do meu aniversário, mas quando era criança, queria estar na escola pra receber o cumprimentos de todo mundo. Achava legal quando a professora pedia que ficássemos em pé pra cantar os parabéns pra algum colega. Mas eu nunca fui o alvo desse coro de parabéns. No dia 13 ou no dia 11, ninguém lembrava.

Dia dos pais sempre foi um pouco estranho pra mim. Não só o dia exatamente, mas as prévias dessa data também. Na escola era uma época em que rolavam sempre apresentações dos alunos para os pais, até mesmo nas aulas de Educação Artística, éramos obrigados a fazer algum artesanato para presentear nossos progenitores. Mas duas coisas me deixavam absolutamente irritado com isso. A primeira, a minha total falta de habilidade com artesanatos. A segunda e talvez crucial, eu não tinha o que fazer com o tal artesanato de dia dos pais. Não morava com meu pai e não tinha nenhum contato com ele. Diziam pra entregar pra minha mãe e era o que eu fazia, mas, geralmente o objeto artesanalmente produzido nada serviria pra uma mãe. Alem do mais, ela já tinha recebido o artesanato dela de dia das mães. Por isso dia dos pais, o famoso segundo domingo de agosto, pra mim não representava nada alem de um domingo muito chato pra ver TV.

Talvez a escola represente 90% da vida social de qualquer criança. E por isso é nela que se formam muitos dos conceitos de certo e errado, muitas manias e hábitos e de certo muitos traumas. O 7 de Setembro não é um trauma pra mim, de forma alguma, mas também não representa nada muito agradável. Hoje em dia me alegra o fato de ser feriado e por tal tenho o dia livre. Quando criança era feriado, mas o dia livre começava normalmente cedo, já que era obrigação de todos os alunos de ir até a Avenida 7 de Setembro pra assistir o desfile de, 7 de Setembro. Não tenho más lembranças dessa época, gostava de ver o desfile. Gostava também do chapeuzinho verde que as professoras ensinavam a gente fazer, numa alusão ao "marcha soldado cabeça de papel".

E assim seguia o calendário com varias outras datas de menor importância, e digo isso, menor importância unicamente pelo tom de feriado nacional ou não feriado nacional. Dia do índio todo mundo se vestia de índio, dia da arvore todo mundo ganhava uma arvore pra plantar. Dia dos namorados não era significante naquela época. Mas em resumo, as datas comemorativas eram muito ligadas a vida escolar, talvez numa tentativa de fazer valer o real motivo da data e incrustar isso no caráter da molecada. Coisas como, o dia do índio serve pra lembrar dos índios que morreram durante a colonização, no dia da arvore, lembramos a importância das arvores, essas coisas que hoje parecem bobagem mas que são conceitos importantes a serem passados as crianças.

Algumas datas tinham um apelo mais intenso, eram essas as de cunho religioso. A páscoa da escola era a do coelhinho e dos ovos de chocolate. A páscoa de casa era a de ir na missa e de entrar num processo meio louco de jejum e não jejum. O que mais me atormentava na páscoa era a encenação da paixão de cristo que faziam pela rua. Nunca fui seguindo aquelas pessoas e quando o "cortejo" passava pela minha casa eu me escondia. Era um clima tenso que me deixava com muito medo. Não sei explicar o que rolava na época, hoje vejo como uma grande bobagem celebrar a crueldade, repetindo a crueldade. Seja ela verdadeira ou não.

Mas todo ano terminam sempre com um gran finale, dois feriados em duas semanas, Natal e Ano Novo. Pra mim sempre foram um pé no saco. Ok, eu curtia ganhar presentes de natal, mas as circunstancias pra isso eram sempre muito complicadas. Sempre morei com minha mãe e meus avos e como todo mundo sabe, casa de avos é o centro do universo familiar no Natal/Ano Novo. Isso quer dizer que minha casa era o centro de convenções escolhido pra reunião de uma imensa família composta de tios, tias e primos. Tudo começava errado pra mim, já que minha cama era a primeira a ser destituída pra algum visitante. Visita dorme na cama, eu no chão. E não quero parecer egoísta com tudo isso, mas, crianças têm um tom muito pessoal com seus brinquedos, porque sabem da dificuldade de consegui-los. E os brinquedos deixavam de ser os meus, passavam a ser brinquedos da casa da vó, ou seja, pertenciam a todo mundo. Sim, sou um comunista e não ligo pra isso hoje em dia, mas na época eu me irritava profundamente em ver meus primos destruindo os meus brinquedos sem o menor pudor. Na realidade o Natal e o Ano Novo eram pra mim um momento de destituição de todos os meus direitos habituais. Coisas simples como comer sentado a mesa, passavam a ser privilegio de adulto. Criança come em qualquer lugar. Usar o banheiro também, sempre a prioridade é das visitas. Quando tudo terminava e as visitas partiam para seus lares, restava sempre uma imensa bagunça e um tom melancólico no ar.

Quando disse que não comemorei o dia do Rock, talvez alguém tenha pensado que tipo de reacionário eu sou. Mas nessa luta pessoal pelo desapego a tudo que é inútil, tudo que só serve pra nos rotular socialmente ou nos prender a hábitos de mercado. Não comemoro dia de nada e faço questão de evitar trocas de presentes com data marcada. Presente legal é aquele que chega desinteressado e de surpresa. Mais que isso, os melhores normalmente não vem em caixas embrulhadas com papel de presente.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Síndrome de Peter Pan.

Não tenho medo de envelhecer, mesmo que isso inevitavelmente remeta a morte. Sempre imaginei que só tem medo de morrer, quem não teve coragem de viver. Mas concordo que envelhecer é para poucos. Procuro entender isso já há algum tempo, até tentando me convencer que este caminho natural e inevitável possa trazer algo de positivo. Crescer foi inevitável ainda que um processo doloroso. Os cada vez mais insistentes pelos brancos na minha barba, dizem que envelhecer também será um processo lento e cruel. Como ver a vida cozinhando em banho maria. Remar contra a correnteza da vida pode ser perigoso e frustrante, pela cruel realidade de ser inútil. Mas de olhos fechados, é possível remar contra a corrente, criando uma fantasia de que é possível driblar o tempo.

A vida é um faz de contas que ás vezes acontece. Fantasiar é fundamental em qualquer situação.

Ainda em meio a um interminável ciclone de novidades, tenho pensado em como seria voltar. Como seria começar denovo, reinventar uma vida que até bem pouco tempo era tão estranha e áspera. Começar denovo é uma das mentiras que inventamos pra tentar tornar a vida menos dura. A imagem do recomeço, a idéia dessa possibilidade deixa uma margem de esperança pra acreditar que qualquer erro pode ser superado, que nada é definitivo. Mas estas são idéias tão utópicas, como se fossem universos paralelos. E é um pouco desesperador não conseguir ver espaço em dois mundos distintos, tão sedutores e tão cheios de miragens. Pra mim, as distintas faces opostas da mesma moeda. Ser o homem adulto, carregado de virtudes e de futuro otimista. Ou ser o herói de fins de semana, de uma juventude de faz de conta, sem saber até quando isso pode durar.

Há um termo em latim que é "Conjunctio Oppositorum" [União de Opostos], os alquimistas adoravam essa expressão porque define bem uma porção de coisas, químico/físicas/filosóficas, que hoje a ciência dissecou e perdeu a graça. Em resumo, é a idéia de que qualquer coisa é composta de partes absolutamente diferentes, que se completam. Como o dia e a noite, pra formar um dia completo, ou a lua com sua face iluminada e sua face obscura. Talvez o conjunctio oppositorum do ser humano, é ser jovem e velho, bom e mal... Honestamente, não sei, é um assunto do qual preciso de mais horas de divagação.

Mas é profundamente sedutor imaginar que exista um lugar onde é possível ser um pouco Peter Pan, onde aqueles fios brancos em minha barba não representam a idade que corroí. Um lugar onde meu discurso faça tanto sentido e minha musica desafinada seja tão importante. Mesmo que só pra mim. Esse é o meu lar, meu castelo e minha fortaleza. Mas infelizmente é inocente acreditar que esse lugar exista alem da minha fértil imaginação. Alem do desejo puro e sincero de viver a vida a todo vapor, sem que façam diferença os números da minha carteira de identidade.

Dia desses lendo uma revista de nome estranho, descreviam isso como Síndrome de Peter Pan. O medo masculino de envelhecer, a idéia de ser sempre o adolescente invencível. De ser sempre heróico, bravo e forte. Na matéria dessa revista, às criticas a estes tipos de atitudes eram abominadas. Descrita como irresponsável e até doentia. O homem adulto que apresenta constantes lapsos de irresponsabilidade não tem espaço na sociedade moderna, concluíam.

Enfim, descubro que sofro de mais uma patologia. Sou Peter Pan de fim de semana, na distante e mágica, terra do nunca.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Façamos Silencio Pra Ouvir o Ultimo Suspiro...

Meu desejo maior nestes últimos dias, tem sido um pouco de silencio. Curioso pensar que é o mesmo silencio que me fez praguejar durante os últimos meses. Curioso e irônico, como escapar da morte num deserto escaldante pra morrer afogado ao encontrar um oasis. Talvez seja essa coisa que o Gessinger queira dizer com "Qual a droga que salva, qual a dose letal". Nos últimos meses, escrevi inúmeros poemas e crônicas. Algumas cartas também (dessas que nunca são enviadas ao destinatário). Os motivos que me levaram a escrever sempre foram extremos. Na maioria das vezes pra expressar a represa que se forma quando varias perguntas ficam sem resposta. Hora escrevi com amor, hora com medo, com saudades e com esperança. Não escrevia pensando em mudar o mundo, mas confesso o desejo de mudar o que sinto. Talvez mudar o que sentem algumas pessoas.

Tantas vezes escrevi em tom revolucionário, às vezes até sem acreditar no que escrevia. Na ânsia de contar histórias e vivencias; Milhares e milhares de devaneios de quem nunca fugiu do perigoso ato de pensar. Invoquei Marx (nunca Engels), quando queria entoar com dedo em riste, os discursos calados que me proibiram de fazer. Discursos raivosos de quem têm tanto a dizer, mas já não tem paciência pra "desenhar" suas teorias. Encarnei Che Guevara diante de uma platéia imperialista e capitalista, disfarçando ter forças sobre humanas pra sobreviver ao paredão de fuzilamento, dos olhares acusadores e das línguas afiadas. Sobrevivi, é o que parece, mas já não posso afirmar com total certeza.

Um dia me disseram que uma folha de papel rasgada, sempre será uma folha de papel rasgada. Mesmo que colada, ela nunca volta a ser papel intacto. É uma forma diferente de dizer aquilo que já disse aqui, sobre um homem nunca entrar duas vezes no mesmo rio. Hora muda o homem, hora muda o rio.

Durante os últimos meses, vivi situações novas e inusitadas até. Trilhos de uma estrada que em tantos anos ainda não tinha percorrido. Polaróides especiais de uma vida que, em tantos anos, eu ainda não havia vivido. Conheci pessoas e lugares. Sabores e sensações. O cheiro de novidade, definitivamente, foi uma constante nos últimos meses. Mas o cheiro de mofo, do velho e áspero silencio, das perguntas sem resposta, nunca se foi. Sempre escondido pelos cantos e pairando sorrateiro pelo ar na calada da noite. Não sou tão pessimista quanto pareço, acho até que sou otimista demais em situações extremas. Mas, minha sina sempre será a de acreditar que cedo ou tarde, o passado volta pra te cobrar dividas esquecidas. Não é medo, é força do habito. Eu tenho alguma coragem que me faz seguir desejando os rios de maior correnteza, mesmo sem saber nadar. Eu sei disso, sei que cedo ou tarde vou me foder pelas escolhas que faço, mas deixar de escolher seria deixar de viver.

Então, pra tentar acalmar toda essa angustia por tantas questões, tantas perguntas sem resposta, tantos paradigmas que caem do céu. O melhor seria mesmo um pouco de silencio. Desses de ficar quieto no escuro, mastigando cacos de vidro de um espelho retrovisor da história. Mas o mundo não para pra esperar que a gente resolva sair da cama, ou levantar da lona. Silencio é coisa rara, jóia preciosa que só tem valor, pra quem realmente precisa. O antídoto só salva, depois de ter sido envenenado.

No final de um e-mail que recebi há alguns dias, tinha essa frase:

"A águia voa sozinha, os corvos voam em bando, o tolo tem necessidade de companhia, e o sábio necessidade de solidão"

É bonito... Belas figuras de linguagem essas de águias, corvos, sábios e tolos. Mas é uma puta bobagem. Se em algum momento na vida me senti sábio, certamente não foi sozinho. E apesar de desejar imensamente um pouco de paz, de silencio. Nunca senti tanta necessidade de voltar ao bando. Paradoxal isso. Talvez eu fosse dessa vez, o calado do bando. Esse que busca o quarto mais escuro, pra clarear as idéias.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Inquisição aos Falsos Pudores

Existem coisas que o tempo nos faz deixar pra trás, algumas pela obrigação de crescer, de evoluir. Outras pela cruel circunstancia de não caber mais no casulo de nossas vidas. Assim como um sapato, que aperta os dedos porque ficou pequeno demais, e a gente abandona em algum canto. Com minha memória super sônica, consigo imaginar a vida como uma timeline e nela até reconhecer algumas coisas que deixei pelo caminho.

Um desses pacotes perdidos, com certeza é o apego a certos pudores. Não me privo em falar e discutir abertamente sobre temas que a maioria das pessoas esconde, seja por respeito excessivo, ou por medo. Não driblo, nem fecho os olhos pra libertinagem que vaga solta por toda cabeça humana em perfeito estado de funcionamento. Honestamente acho que alguns pensamentos/sentimentos, acorrentam o homem a um estagio de neandertalismo, impedindo que se liberte definitivamente rumo a uma evolução de verdade.

Procuram vida inteligente em outros planetas, sem se dar conta de que não conhecem a vida inteligente desse nosso planetinha Terra - Curiosamente pintado de Azul água. Seres humanos em sociedade, não são como uma matilha de lobos seguindo o macho Alpha. Ao menos, não deveriam ser. Mas o homem, criatura complexa, é animal instintivo em algumas situações, e forçadamente racional em outras. O desejo humano é nato e instintivo. Os pudores, são culturais, são forçados. O que difere um homem de uma tribo isolada da África, de um homem tido como civilizado, é única e exclusivamente a influencia cultural que a sociedade impõe. Os pudores são desses fatores que influenciam. Um homem civilizado não anda pelado pela rua, mesmo que sinta necessidade ou prazer com isso. Porque culturalmente isso é errado. O homem da tribo isolada anda nu quando quer, e se não quiser, se protege de acordo com a necessidade.

Mas não são só estes pudores de que falo. São pudores que em minha analítica opinião, ancoram o ser humano na correnteza da historia. Não é sobre a moda pelado/vestido que falo. São pudores sociais e ideológicos. Por exemplo, render-se de olhos fechados às regras que a sociedade empurra goela abaixo, pela simples razão de não querer destoar do "grupo", é um pudor social. O pudor de não se rebelar. E de braços dados a esse pudor vem a hipocrisia e a demagogia.

As pessoas fazem sexo, imaginam e sonham com sexo. Nascem por causa de uma trepada, da qual se recusam a considerar. Tem desejos e taras, algumas mais extravagantes que outras. A vida como conhecemos, em sua maioria, depende do sexo pra ter continuidade. Mas em algum momento histórico alguém inventou a religião e com ela o céu e o inferno. Com o céu e o inferno vieram as definições de certo e errado. E assim criou-se a primitiva imagem do PECADO. E ai vem a grande e histórica demagogia da humanidade. O sexo virou pecado, mesmo que a vida dependa dele. O pudor sobre o sexo veio justamente com essa limitação social de ditar que o errado, que o pecado te leva para o inferno. Então se evita falar sobre um assunto tão complicado, um assunto inevitável, que não sai das nossas cabeças, mas que nos leva a uma eternidade de sofrimento.

Eu poderia ficar por muito tempo falando disso, dos vários pudores que amarram a sociedade. De como eles são mesquinhos e medíocres, mas principalmente, frutos de uma sociedade doente e que carrega pelos séculos essas idéias ornadas de ignorância. Machismo e feminismo, dizem que há assuntos que podem ser tratados livremente pelos homens, mas que tornam-se absurdos nas bocas femininas. O moleque não veste rosa, porque alguém inventou que é cor de menina, cor de menino é azul. O cara não fala que o amigo cheira coca, porque tem alguma vergonha disso, mas esquece que Freud indicava cocaína aos pacientes, e que era remédio legal no inicio do século passado. Bobagens gigantescas. Pudores, falsos e mentirosos, que devem ser deixados pra trás, como pacotes desnecessários na timeline da nossa história, das nossas vidas. Carregando esses pudores, seremos pra sempre barcos ancorados na calmaria de lugar nenhum.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Paradigmas da Sociedade Moderna, Salve-se Quem Puder!

A revolução francesa mudou o mundo, isso a gente aprende na escola. Quem frequentou esse lugar santo por algum motivo, alem da merenda ou do papo furado com os colegas, sabe do que se trata. Foi o fim de um período obscuro, a queda da monarquia e o enfraquecimento do clero. O inicio de novos tempos. A frase de Jean-Jacques Rousseau, "Liberté, Egalité, Fraternité" (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) ecoava entre o povo oprimido, que ansiava pelo fim da servidão, do corpo e da mente. Ninguém usa camisetas do Jean-Jacques Rousseau, mas usam camisetas do Renato Russo, que só é russo, por causa do Rousseau.

Eu tenho uma camiseta do Che Guevara, mas muita gente tem camisetas do Che Guevara. O que pouca gente sabe, é que em 1959, as tropas guerrilheiras de Fidel Castro, Ernesto e Camilo Cienfuegos, conseguiram por fim derrubar o governo omisso e corrupto de Fulgencio Batista. Instituíram uma ditadura militar, sim, sobre outra ditadura militar. A ditadura de Fulgencio beneficiava os ricos e prostituia Cuba aos prazeres estadosunidenses. A ditadura de Fidel matou a fome do povo, educou e cuidou dos doentes. Che era médico, argentino, morreu na Bolivia lutando pela liberdade de um povo que não era o seu. Ao inferno com essa de patriotismo, opressão, fome e violência não têm pátria, assim como o direito a liberdade. Che tem uma legião de seguidores, com camisetas e frases feitas, mas os seus idéias ficam na maioria das vezes, em alguma gaveta empoeirada.

Não quero falar de história, por isso a superficialidade na narrativa dos fatos. A intenção é somente usar o exemplo.

Usar uma camiseta do Che pode ser tão mentiroso quanto usar uma camiseta do Pink Floyd, sem saber quem foi Syd Barrett. Assim como pode ser mentiroso cantar Sociedade Alternativa, a todo pulmão, logo depois de usar um falso poder a fim de oprimir uma minoria. Fico meio de saco cheio, quando ouço pessoas que se apóiam em discursos de idéias que não seguem. Repetindo como papagaios teorias e divagações pré fabricadas, que na grande maioria das vezes, sequer fazem idéia do que realmente se trata. Fico angustiado como as pessoas se prendem a rótulos. Seja rotulando as pessoas que estão a sua volta, seja se auto rotulando. Ultimamente tenho visto uma insistência em repetir a pratica do desapego, que é tão mentirosa que me faz perder um pouco da esperança na capacidade de auto critica, e de bom senso de algumas pessoas.

A revolução industrial mecanizou a manufatura. Mas em que ponto da história o ser humano foi mecanizado? Será que é esperar demais das pessoas, bom senso e sensibilidade para raciocinar??? Não deveria ser. Mas talvez seja preciosismo da minha parte.

Mas minha irritação não tem fim. Todo dia vejo isso: A moda, a sociedade, os padrões, as opiniões mesquinhas rotulando as pessoas. Um cara usa um Kilt, sem saber qual é a diferença de um escocês, de um bretão e de um irlandês. Não faz a menor idéia da importância tribal de um tartan, mas usa orgulhoso o seu kilt. Com o único objetivo de chamar a atenção. Uma guria com a maior pinta de riponga fica tirando onda numa vida anos 60. Tudo muito bom, tudo muito bem, não fosse a total incapacidade que ela tem de viver em sociedade pacificamente. Não tem problema, o que vale é a imagem que tá sendo vendida. Lennon cantava Imagine, pregava uma vida pacifica e simples. Longe dos holofotes, gastava mais de 5 mil dólares por dia com heroína, e batia na mulher.

Tanto faz, o importante é manter uma imagem. Seja popular, dizem os enlatados americanos. Seja Nerd, dizem os seriados da TV. Um saco... Lá do outro lado um cara recita sempre o mesmo trecho de um livro do Dostoievski, e nem é porque ele gosta de Dostoievski, mas ele acha que faz uma moral do caralho recitando o único trecho, do único livro que ele leu. Pra garantir em sua testa o carimbo "Cult", fala de Descartes como se fossem íntimos de uma vida toda. Colecionando frases feitas e de impacto. Assim como eu colecionava latinhas de cerveja quando criança; Vazias, sem conteúdo. Bebidas por alguém que, não era eu.

Enfim, to cansado desse papo furado. Vou me fechar um pouco nesse mundo bonito que criei na minha cabeça. Garantirei minha segurança, cerca elétrica e cachorro bravo. Fuck Off pra essa gente escrota, à la puta madre de mierda pra estes rotulados mesquinos e mediocres.
E só pra quebrar minhas proprias teorias sobre frases feitas;

"Let it Be" diria Paul, o bom moço. Que tem o triste defeito de achar que é o ultimo Beatle vivo. "Fé cega e pé atrás", diria Gessinger, que tem o triste defeito de achar que é o ultimo engenheiro hawaiiano vivo.